‘Titane’ no Oscar, na Mostra, na Mubi

‘Titane’ no Oscar, na Mostra, na Mubi

Rodrigo Fonseca

13 de outubro de 2021 | 09h44

O poster da estreia americana do filme de Julia Ducournau, já garantido pela Mostra de São Paulo e previsto para estrear aqui via MUBI, em 2022

Rodrigo Fonseca
Na atitude mais corajosa e afinada com a vocação popular do audiovisual (mesmo daquele dos mais autorais), a França apostou em “Titane”, uma obra-prima (mas que não cai bem em todos os gostos), como sua escolha para disputar uma vaga para concorrer ao Oscar de melhor filme internacional em 2022, apoiada na vitória do longa-metragem de Julia Ducournau em Cannes. A Palma de Ouro deste ano foi para as mãos da cineasta. Já em cartaz nos EUA, totalizando um faturamento global de cerca de US$ 3 milhões nas bilheterias, este exercício de ousadia já foi vista por 295 mil pagantes em telas francesas. No Brasil, ele vai ser lançado online, pela MUBI (www.mubi.com), a plataforma digital de curadoria humanizada, em 2022. Mas, antes, vai ter sessão dele na 45ª Mostra de São Paulo. Veremos 265 filmaços na maratona paulistana, com direito a um Almodóvar inédito (“A Voz Humana”, com Tilda Swinton), ao filme que deu ao mestre sul-coreano Hong Sang-soo o prêmio de melhor direção na Berlinale 2020, “A Mulher Que Fugiu”; e ao memorável drama luso “Listen”, de Ana Rocha de Sousa. Do Brasil, tem produções esperadíssimas dirigidas por Bárbara Paz (“Ato”), Laís Bodanzky (“A Viagem de Pedro”), “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira; Ana Maria Magalhães (“Já Que Ninguém Me Tira Pra Dançar”); e Joel Zito Araújo (“O Pai da Rita”).
Revelada com o périplo de uma estudante de Veterinária acometida por um desejo súbito de comer carne humana, narrado em “Grave” (“Raw”, 2016), Ducournau, uma parisiense de 37 anos, enxerga o corpo como um lugar de revelações e de transcendência, a julgar pelo processo revolucionário que suas protagonistas passam a partir de um gatilho de seus organismos. A jovem vegana que vira canibal passa a atacar gente por culpa de uma fome incontinente. Já em “Titane”, uma mulher na casa dos 20 e tantos anos engravida após uma relação sexual sem preservativo. Mas seria difícil encontrar camisinhas que dessem conta de seu parceiro: um… carro. Por cerca de nove meses, após uma transa em que latarias metálicas de agitam, Alexia (Agathe Rousselle, numa atuação devastadora) vai expelir um líquido que parece óleo diesel de sua vagina. Por vezes, a secreção é graxa. São imagens que, faladas, soam caricatas. Porém, filmadas com a elegância (e a visceralidade) de Julia, essas situações escabrosas rendem “O” filme do ano. É uma exortação da potência corporal, típica de Julia, mostrando a carcaça humana como um templo de afirmação do livre arbítrio, num estudo sobre identidades performáticas.

Agathe Rousselle tem uma atuação memorável

Em San Sebastián, onde o P de Pop conferiu essa joia, houve gente saindo das sessões quando Alexia bate o próprio rosto contra uma pia, a fim de deformar seu nariz. Deformar-se é parte da reinvenção pela qual a personagem há de passar quando se assume, sem culpa, como serial killer, dando um ponto final à existência de homens que passam dos limites na aproximação a ela e dando um adeus a mulheres que não reagem a seus carinhos furiosos como ela espera. E ela mata usando um pau de cabelo como arma. Mas é a segunda transformação por que a moça passa. A primeira acontece em sua infância, quando um acidente rodoviário impõe a instalação de uma placa de titânio em sua cabeça. Ali ela vira ciborgue.

Ali vem um espírito cronenberguiano desta alegoria sobre a condição maquínica da civilização. Uma condição alinhada com estes tempos em que somos, a cada dia mais, centauros de nossa tecnologia. Antes de Julia lançar essa fábula dark sobre o devir chassi em cada um de nós, a diretora pernambucana Renata Pinheiro já havia tratado do tema em seu vicejante “Carro Rei”, eleito o melhor filme de Gramado, em agosto. Ambos têm parentela com “Crash: Estranhos Prazeres” (Prêmio do Júri em Cannes, em 1996), do já citado David Cronenberg. Lá, acidentes de carro excitavam pessoas marcadas por cicatrizes. Em “Titane”, Alexia, que também ostenta uma ferida cicatrizada na pele, só tem orgasmos com veículos de quatro rodas, levando consigo o fruto desse prazer. Fruto esse que vai se desenvolver numa assustadora aproximação da narrativa com os códigos do horror. O que dilui o tom sombrio – mas não o clima de bizarrice – é a relação que Alexia estabelece com um bombeiro (Vincent Lindon, o Antonio Fagundes da França) que enxerga nela a filha que perdeu. É o germe de um amor paterno que vai descambar para algo sem nome, surpreendente como cada fotograma desta aula de biologia existencialista. Uma aula que incomoda, como tudo o que nos liberta.

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