Tiradentes é hóspede do ‘Hotel Cambridge’: zona autoral de conflito

Tiradentes é hóspede do ‘Hotel Cambridge’: zona autoral de conflito

Rodrigo Fonseca

21 Janeiro 2017 | 14h57

Apolo (José Dumont) mata sua sede, mas não sua fome de inclusão em

Apolo (José Dumont) mata sua sede, mas não sua fome de inclusão em “Era o Hotel Cambridge”: atração de Tiradentes

RODRIGO FONSECA
É raro uma votação popular e uma votação de críticos coincidir nos resultados, como se deu no último Festival do Rio com o feérico Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, que promete ser “o” filme deste sábado na 20ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais. Galardoado com uma menção especial no Festival de San Sebastián, na Espanha, ele papou, na maratona carioca, o troféu Redentor de melhor montagem e os prêmios da votação do público e da votação da Fipresci, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica. Sua discussão, na franjas da inclusão, faz dele uma explosiva proposição para conversas sobre a ocupação do espaço urbano nas metrópoles brasileiras povoadas de imigrantes estrangeiros.

Tema fundamental para redefinições (e inclusões) geopolíticas da contemporaneidade, abordado, este ano, como assunto central em festivais como o de Berlim, a questão dos refugiados políticos incendiou a Première do Rio, fazendo de uma São Paulo de mil desigualdades (e múltiplos combates) seu cenário ao longo dos 90 claustrofóbicos minutos de Era o Hotel Cambridge. Dirigido por uma Eliane Caffé (Kenoma) fiel à sua investigação autoral sobre figuras em deslocamento (em busca de um fixismo cômodo e protetor), o longa-metragem é o mais caudaloso (e rigoroso, na forma) filme da diretora paulista. Nele, imigrantes degredados do Congo, da Palestina, da Síria e da Colômbia se refugiam na hospedaria abandonada do título, em SP, ao lado de um grupo sem teto de distintos CEPs. Lá dentro, um agitador cultural com aptidões para o teatro, Apolo (José Dumont, de volta às telas com som e fúria, em uma atuação de gerar taquicardia), ajuda uma dirigente de movimentos de ocupação (Carmen Silva) a dar um norte para aquela babel de muitas línguas, capaz de fundir não-atores a grandes intérpretes (vide Dumont e Suely Franco, que ilumina a cena a cada aparição).

É difícil ver outra pessoa que não Dumont recebendo o Redentor de melhor ator este ano, apesar da torcida forte por Marcos Veras, com O Filho Eterno, e do desempenho devastador da dupla formada por Julio Andrade Irandhir Santos em Redemoinho. Mas, se o mundo fosse justo, o certo mesmo, pela quantidade de tempo em cena, era Dumont ganhar como coadjuvante. Mas… E, como já falou-se aqui, tem Marat ainda a ser visto.

Suely Franco entre os imigrantes

Suely Franco com os imigrantes do elenco

Diverso de tudo o que a realizadora de Narradores de Javé (2003) e O Sol do Meio-Dia (2009) fez até agora, trocando ambientes de um Nordeste profundo pela metrópole nº 1 do país, Era o Hotel Cambridge parece mais um exercício investigativo do que um ensaio propositivo, eletrizado por uma linguagem (bem) equilibrada no arame farpado entre fato e ficção. Tem um quê de arquivo, tem um quê de chat via Skype, tem perfil de rede social e tem um relógio que corre disparado, cronometrando o período que os personagens têm antes de uma possível expropriação. Fica-se pouquinho com cada um no roteiro escrito pela cineasta e por Inês Figueiró, com o aporte do dramaturgo Luiz Alberto de Abreu. Cada momento um refugiado ou um sem-teto nativo ganha a ribalta para si, o que é suficiente. O protagonismo é muito mais da situação – estrangeiros em degredo e brasileiros em condição de pobreza plena – do que desta ou daquela pessoa ou família. Claro que, com inteligência, Eliane nos deu Apolo (ou melhor Dumont) para ser um ponto de apoio, o “rosto amigo” entre anônimos.

era_cambridge Hotel

Se o dispositivo é o da busca, e o ensejo é investigar, a montagem (feita por Marcio Hashimoto) precisa de atenção redobrada para que as idas e vindas e para que todo o vasculhar daquela “aldeia de cimento” tenham um sentido estético – e, por que não?, um calor político. Nesse ponto, o filme avança cinematograficamente em relação à bela contribuição de outros filmes brasileiros sobre o mesmo tema, como Dia de Festa (2006) e Estamos Juntos (2011), de Toni Venturi, e À Margem do Concreto (2005), de Evaldo Mocarzel. A recepção aqui foi traduzida em forma de discussão sobre o lugar dos refugiados no Brasil. E, em paralelo, houve muito riso, catártico, nas peripécias de Apolo, cantando “música de corno” e bebendo com os gringos.

Descrito aqui como um “poema da geopolítica”, Era o Hotel Cambridge se candidata à Eternidade de debates enquanto o expatriamento e o desterro forem temas do mundo e da Economia. Há um momento e outro de um didatismo exagerado (como na cena de Apolo lendo depoimentos racistas), e um ou outro clichês (como a situação da  jovem branca de classe média de paquera com um negro africano) mas nada que comprometa o vigor sensível e a relevância social desta produção com fôlego de trem-bala e com a retidão delicada de haical.

“Os Incontestáveis”: moqueca capixaba

Para domingo, a Mostra de Tiradentes reservou pra sua plateia uma moqueca capixaba puxada no sal do humor: Os Incontestáveis. Talvez a mais provocativa atração de toda a programação do evento mineiro, este road movie trapalhão registra um tiquinho da estética suicida característica do cinema capixaba contemporâneo, ao esculhambar todas os padrões morais e toda a correção política numa história sobre dois malandros em busca de um carro de estimação que foi adquirido por um poderoso latifundiário. No caminho até o veículo, os dois vivem situações dignas dos filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen na narrativa irônica do diretor Alexandre Serafini. E ainda tem Tonico Pereira como uma espécie de Tommy Lee Jones coronelista. É o achado da seleção do evento, entre os títulos ainda carentes da devida visibilidade.