Tintas de ‘Aquarela’ e o alumbramento de ‘Ernesto’

Tintas de ‘Aquarela’ e o alumbramento de ‘Ernesto’

Rodrigo Fonseca

17 de dezembro de 2019 | 14h49

Rodrigo Fonseca
Entre os documentários internacionais de maior impacto no Festival do Rio 2019, um ensaio ecológico de timbres poéticos sobre as águas do planeta vem assaltando olhares, corações e mentes na maratona cinéfila carioca, que chega ao fim nesta quinta: “Aquarela”, do diretor russo Victor Kossakovsky. As dinâmicas geofísicas da Natureza são o foco dessa narrativa construída em diálogo com as artes plásticas. Tem sessão dele nesta quarta, às 15h30, no Estação Net Gávea.
“O exercício de humanismo mais urgente que o mundo requer hoje é o alarmismo ecológico, o pleito em prol da defesa da natureza. Eu não faço cinema para fazer política, pois acredito na força que essa forma de arte tem como linguagem, para além das teses que possa levantar”, disse Kossakovsky, em papo com o Estadão P de Pop, explicando como filmou tomadas arrebatadoras da força das águas do planeta, em locais diversos, do Lago Baikal da Rússia ao litoral de Miami, passando por corredeiras na Venezuela. “Imagem é a essência do cinema. É importante entender o que cada imagem tem a dizer num filme, pela cor, pela dimensão plástica. Um filme é um quebra-cabeças de sentidos”.
Exibido no Festival de Veneza de 2018, com enorme sucesso de público e crítico, “Aquarela” testemunha desde o deslocamento de placas de gelo até uma tempestade, retratando de formas inusitadas o fluxo hídrico seja da chuva, seja dos rios, lagos e mares para onde o cineasta mira sua câmera. A água vai sendo descontruída, a cada quadro, num efeito sensorial arrebatador. “No documentário, ao contrário do que se faz na ficção, a Natureza é quem guia o que fazemos. Não escolhi as pessoas que filmei: o roteiro aqui não foi escrito, a câmera foi me levando aos encontros, guiado pela água”, disse Kossakovsky.

Na noite de segunda, ainda embatucado pela beleza trágica de “Vitalina Varela”, do português Pedro Costa, ganhador do Leopardo de Ouro de 2019, o Festival do Rio 2019 foi embalado nos braços calorosos de Seu Ernesto, uruguaio radicado num Brasil ali do Sul que passa sua vida e seu desejo de resistir a limpo numa troca de correspondências com um amor de ontem. O personagem centro de “Aos Olhos de Ernesto” é vivido por Jorge Bolani (de “Whisky”) com uma delicadeza nas raias do trágico, sob a direção de Ana Luiza Azevedo (do analgésico “Antes que o mundo acabe”). O roteiro é dela e do artesão das Letras Jorge Furtado, que esgrimam a dimensão imagética da palavra na busca por um relato de sentidos existenciais perdidos e quereres anestesiados. Ernesto vinha vivendo em ponto morto, inerte numa cegueira que lhe consome a visão, numa sina borgeana. Mas a aparição de uma estrela cadente chamada Bia (Gabriela Poester, numa atuação elétrica) vai acender novamente o astro rei afetivo de seu sistema solar. A fotografia de Glauco Firpo navega de canoa numa marola de sensações leves, sem jamais exagerar no colorido, sem nunca perder – em sua precisão de relógio suíço – a medida do intimismo. É um filme que parece alicerçado só nos diálogos e em atuações sólidas, com o Depardieu Julio Andrade botando na algibeira todas as cenas em que aparece. Mas essa aparência cai quando a potência plástica de Ana Luiza – já detectada no belo “Dona Cristina Perdeu a Memória”, de 2002 – se faz notar, nos idílicos passeios de Bia com seus cães. Tem mais uma sessão nesta quarta, às 1845, no Roxy, e às 21h, no Reserva Cultural.

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