Thriller de Pedro Iuá é o filé do Anima Mundi

Thriller de Pedro Iuá é o filé do Anima Mundi

Rodrigo Fonseca

11 de julho de 2019 | 19h56

Um homem jurado de morte pelo crime busca num açougue sua salvação no filme “Contra-filé”, um dos destaques nacionais do Anima Mundi, que começa na quarta-feira no RJ

Rodrigo Fonseca
Começou a contagem regressiva para o 27º Anima Mundi, acontece de 17 a 21 de julho no Rio de Janeiro, e de 24 a 28 de julho, em São Paulo, e contará com mais de 300 filmes de 40 países, incluindo um filmaço policial brasileiro, assinado por Pedro Iuá, que periga se tornar um cult: “Contra-filé”. A trama: um acerto de contas no mundo do crime. O cenário: um açougue, onde experts em cortes nobres, bifes e carne de segunda discutem a arte de dilacerar músculos. O tom lembra o cinema noir hollywoodiano, dos clássicos de Howard Hawks a “Os Intocáveis” (1987). É um trabalho de maturidade de Iuá, animados nascido em Saquarema, no RJ, há 39 anos, antes conhecido “Sushi Man”, lançado em 2003.

“Trabalho com  animação desde os 18 anos, e comecei por causa do Anima Mundi e sua oficina aberta de massinha”, diz Iuá. “Logo no início, eu fiz um curso de animação César Coelho, que é um dos diretores do festival, e tive a sorte de ser chamado para trabalhar com ele como assistente alguns meses depois. Foi na Campo 4, estúdio do César e da Aída Queiroz, onde aprendi boa parte do que sei, com eles e com outros grandes artistas que conheci por lá. O resto acho que descobri fazendo e errando e refazendo. E assistindo muita animação”.

Este ano, o Anima Mundi traz pérolas como híbrido de .doc, drama e sessão de análise à moda gaúcha “A Cidade dos Piratas”, de Otto Guerra; a aventura cinéfila espanhola “Buñuel en el laberinto de las tortugas”, premiado longa-metragem de Salvador Simó, inspirado na HQ de Fermín Solis sobre o diretor de “O discreto charme da burguesia” (1972); e o curta em massa de modelar “Mémorable”, que rendeu ao diretor Bruno Collet o prêmio Cristal no Festival de Annecy, na França, a Cannes do setor. De lá veio ainda o tocante curta português “Tio Tomás – A contabilidade dos dias”, de Regina Pessoa, que ganhou o Prêmio Especial do Júri de Annecy, e chega ao Brasil, via Anima, trazendo toda a potência trágica do cinema luso. A maratona animada brasileira vai fazer ainda uma homenagem ao cineasta Fernando Miller, realizador de joias como “Furico e Fiofó” (2011).

Na entrevista a seguir, Iuá define a estética de seu filme, que arranca até as pelancas do submundo.

Animação com bonecos de resina evoca cults do cinema noir de Hollywood

Como é construída a direção de um thriller de bonecos como “Contra-filé”?
PEDRO IUÁ:
Acho que as ideias estão por aí e, de vez em quando, elas se atraem e se aglomeram de um jeito que a gente não tem como ignorar. Comecei a encontrar esse filme na fila de um açougue, no Rio de Janeiro. Sempre achei que as filas representavam bem esses momentos em que a gente está totalmente entregue ao destino, sem poder fazer nada além de esperar a nossa vez. Foi onde ouvi dois açougueiros conversando sobre como é perigoso cortar o contra-filé sem luvas de aço, porque as fibras desviam a lâmina da faca. Ali esperando, imaginei que isso seria uma boa base para um suspense escuro, com facas e sangue, tudo em stop-motion, num ambiente estranho, torto, onde a tensão aumentasse cada vez mais, a ponto de as pessoas temerem pela vida de um boneco. Essa ideia ficou fermentando por um tempo e voltou à superfície em um jantar com três amigos atores. No jeito como eles falavam absurdos agressivos e cômicos de improviso, achei que tinha encontrado os açougueiros, e que, dali, poderia mesmo sair um filme. E descobri também que queria fazer tudo baseado no improviso, criando na medida em que o projeto fosse sendo feito, incorporando acasos e contratempos à narrativa. Convidei os três para uma gravação, coloquei na frente deles algumas facas, amoladores, uma peça de contra-filé e um mapa com os cortes do boi. Das quase duas horas de material hilariante, foi difícil escolher só cinco minutos. Tudo o que está no filme foi animado em cima dessa gravação. Já tinha um início e um final, e com a gravação desenvolvi o resto do roteiro. Mas o filme foi sendo mais descoberto do que planejado.

Como controlar o tempo narrativo, como harmonizar a interação entre os bonecos?
PEDRO IUÁ: Eu animei as cenas na sequência, montando na medida em que animava. Algumas vezes, experimentava o ritmo na montagem, com quadros parados, para testas ângulos e enquadramentos antes de decidir o caminho. Quase como um animatic em tempo real. Nas cenas sem fala, esse processo foi bem livre. Mas quando tinha diálogos, havia algumas limitações, mas que se transformaram, logo, em fonte de ideias. Eu precisava construir as situações dentro do tempo dos diálogos gravados, e incorporar os assuntos improvisados à narrativa. O mais incrível de animar em cima de vozes tão expressivas é que, muitas vezes, é só olhar para o boneco e ouvir um pouco a sua voz: ele diz o que tem que fazer. É quase como improvisar sobre uma partitura: a gente sabe o que o boneco vai dizer, e tenta fazer coisas interessantes no caminho, coisas que ele faria. Quando são dois personagens falando é ainda melhor, porque você tem dois instrumentos pra tocar, e o desafio é fazer a atenção fluir de um pro outro, sem que nada entre em conflito e você não perca alguma animação que acha que ficou sensacional mas pode se embolar no meio de muita informação. E tendo sempre em mente que tudo que está sendo animado vai ser aproveitado no filme. Refiz poucas cenas. Acho que foi isso que imprimiu o ritmo tenso e imprevisível que acabou aparecendo no filme.

Como e o quão custosa (em $ e tempo) dos bonecos?
PEDRO IUÁ: Os bonecos foram construídos com silicone, diferentes metais e algumas resinas. Eu me inspirei no cubismo para dar as formas estranhas e cheias de arestas, pois queria que ficassem bem recortadas pela luz, e que, de cada ângulo, parecessem um pouco diferentes. Tudo pra engrossar o caldo da tensão narrativa. Tive um apoio do edital Itaú Rumos para fazer o filme, e a construção dos bonecos usou cerca de 20% do orçamento total. Mas o tempo de confecção acho difícil medir, porque comecei a modelar alguns personagens há mais de sete anos.

Qual é a sua relação com as narrativas policiais e o quanto elas marcaram a construção da dramaturgia de “Contra-Filé”?
PEDRO IUÁ: Sempre gostei de literatura policial, desde pequeno. Passava férias inteiras com Sherlock Holmes e Watson. Gosto muito também da violência mais seca e imprevisível de Dashiell Hammett, e das tramas incrivelmente elaboradas de James Ellroy. Acho que tem uma certa atmosfera desses universos no filme. E tenho uma queda também pela forma como alguns diretores equilibram violência e humor, como Tarantino e como Sérgio Leone, que cria as cenas mais tensas com tão pouco.

Tendências: