Thriller com leite de rosas, o tesudo ‘Berenice Procura’ seu público

Thriller com leite de rosas, o tesudo ‘Berenice Procura’ seu público

Rodrigo Fonseca

21 Junho 2018 | 19h01

A luz do fotógrafo Azul Serra delineia a potência poética da direção delicada de Allan Fiterman na releitura do romance “Berenice Procura”, publicado em 2005 por Luiz Alfredo Garcia-Roza

Rodrigo Fonseca
Do lugar de fala do suspense, tangenciando duas esferas éticas da ordem do dia (o pleito de visibilidade e de representação trans e o protagonismo feminino), Berenice Procura deixa a Estética falar tão alto (e com tanta potência) quanto as causas políticas que encampa. E o faz graças à fotografia de Azul Serra. Não havia um segundo da projeção deste longa-metragem de Allan Fiterman em que Um Tiro na Noite (1981), a ode de Brian De Palma a Antonioni, saísse da minha cabeça, dado o vomitório imagético e afetivo à minha frente, numa visita a uma Copacabana queer. A ligação com o cult do mestre De Palma vem não só da vertigem aliada a um submundo de sexo: em ambos, um assassinato arrasta subjetividades que trabalham com vetores físicos (o som lá, a velocidade de um táxi aqui) para uma realidade paralela, de perigo e de gozo. E, poucas vezes, o realizador de Carrie, a Estranha (1976) dedicou tanta delicadeza a um personagem como fez com o sonoplasta vivido por John Travolta, acossado por gravar os ruídos de um crime. O mesmo se dá com Cláudia Abreu (numa volta às telonas mais do que inspirada) na pele de uma taxista, Berenice, cujo mundo se vê em ruínas. A bichinha sofre, mas tem a seu lado o alento do diretor, que traz todas as situações de risco e de assombro a seu redor para um lugar que resvala no folhetim, sabendo converter o que existe de mais brega na trama em algo vintage, vívido e caloroso.

Fiterman faz de Berenice Procura um thriller leite de rosas, com algo de almodovariano em seu excesso – tipo Áta-me (1989), tipo Má Educação (2004) -, temperado com o ethos trágico nietzschiano inerente à literatura de Luiz Alfredo Garcia-Roza. É dela que vem o filme, cuja estreia será na quinta-feira que vem (dia 28), sob a caprichosa produção de Elisa Tolomelli.

Com uma direção de atores impecável, Berenice Procura é, sim, um filme policial no seu tônus investigativo, mas preserva um miolo de cinema de lágrimas latino, como um bom melodrama  sobre famílias terrivelmente infelizes e sobre sublimação de desejos. De Garcia-Roza vem não só a trama-guia e a Tebas batizada de Copacabana. Vem do autor de O Silêncio da Chuva a construção de uma dramaturgia sistemática, que se fecha em torno do tabuleiro que é apresentado no início do “jogo”… um jogo com a percepção do espectador. Aliás, é um jogo sensorial, sinestésico, executado com maturidade por Fiterman, em diálogo direto com o tom autoral temático de “volta por cima” de seus longas anteriores, Embarque Imediato (2009) e (a joia) Living the Dream (2006). Existe uma argamassa da boa sustentando os planos do cineasta que precisa ser ressaltada: a estrutura de roteiro de Flávia Guimarães e de um Jedi baiano, o Yoda chamado José Carvalho, maior professor da língua do script hoje no país. Há, na estrutura dos atos do filme, uma calculada modulação de viradas, demarcada por um cronômetro, disparado já na abertura, acerca da descoberta de uma jovem trans morta.

No início, numa radical composição de Cláudia Abreu, a protagonista pisa em cena na fossa de si mesmo. Evoca, pela cruz de seu nome, uma canção do duo Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos, que diz: “Justo você Berenice/ Que não chega nem aos pés da Vera Fischer/ Me sai com essa sandice/ De que meu som não chega nem no calcanhar de Aquiles/ Do som do Sting ex-The Police”. Berenice casou mal: nas cacetadas dos anos todos da vida adulta no RJ, o jornalista Domingos (Eduardo Moscovis), seu marido, virou uma caricatura machista daquele príncipe encantado que prometia ser. Enquanto ela ganha a vida na bandeira dois, ele brinca de Wagner Montes em programas de mundo cão. E entre os dois, em meio a uma cobrança de falta de sexo com açúcar, há um filho, Thiago (Caio Manhente), em processo de descoberta de seu eu. E nesse “descobrir-se”, Thiago vinha contando com a ajuda inestimável da bela Isabelle (Valentina Sampaio), justamente aquela trans cujo corpo defunto abre o filme.

Claudia Abreu vive uma taxista que busca se conectar com o filho em meio ao universo queer da noite carioca

Tem PM de olho no lance: o delegado Jair, papel confiado a Leonardo Brício, possante ator que ocupa um canteiro afetivo solar na memória de quem adolesceu vendo A Justiceira (1997) na TV Globo. Jair está ligado nos bastidores do assassinato da jovem, que canta a dor de cotovelo na forma de Amor Marginal como ninguém. A iluminação de Azul Serra deposita mais purpurina sobre a auréola de anjo de Isabelle. Há quem suspeite do irmão dela nesse cumburucu: Russo, marginal cheio de lábia, interpretado por Emílio Dantas, que cumpre bem aquilo se espera dele: roubar para si todas as cenas. Ou quase todas, pois tem Vera Holtz na jogada, como a abusada dyke que chefia a boate onde Isabelle cantava.

Em meio a damas e valetes, reis e rainhas da noite, Berenice trafega por Copacabana como observadora dos pecados alheios, fruindo de alguns, temendo outros, aprendendo. Com ela saímos, com ela voltamos… por adesão fortuita e não por imposição do roteiro. Há, por trás dela, uma grande atriz em cena vitaminando o esqueleto de uma quase investigadora, talhada nas perdas e danos do dia a dia na ginástica de seu taxímetro. É uma quase heroína, imperfeita na demasia de sua humanidade, imolada aqui em prol de um estudo sobre novas formações familiares e velhos vícios da Princesinha do Mar.

Taí um filme que dá prazer…