‘This is 40’: tem Judd Apatow no ‘Supercine’

‘This is 40’: tem Judd Apatow no ‘Supercine’

Rodrigo Fonseca

11 de janeiro de 2020 | 10h25

O cineasta Judd Apatow e sua parceira de vida e obra, Leslie Mann, protagonista de “Bem-vindo aos 40” (“This is 40”), hoje na TV aberta

Rodrigo Fonseca
À 0h20 deste domingo, o “Supercine” vai fazer História (como fazia nos tempos em que lançou “Kramer vs. Kramer” e “Platoon” na TV aberta brasileira) ao levar para a tela da TV Globo uma das mais tocantes crônicas da vida em família feita esta década: “Bem-vindo aos 40” (“This is 40”, 2012), de Judd Apatow. Nestes tempos de “História de um casamento”, a joia de Noah Baumbach, sintonia da emissora carioca com as representações afetivas do presente soam precisas. Neste agridoce longa-metragem, nunca lançado no circuito nacional, a atriz Leslie Mann (parceira de vida e de obra de Apatow) e o genial ator Paul Rudd brilham em cena, vivendo um casal atomizado pelas indelicadezas do dia a dia do matrimônio. É uma sequência (ou quase) do fenômeno de bilheteria “Ligeiramente Grávidos” (2007). As participações de John Lithgow e de Albert Brooks são hilárias. Orçada em US$ 35 milhões, a produção faturou US$ 88 milhões nas bilheterias, prejudicada pela onda de vacas magras na comédia hollywoodiana pós “Se Beber, Não Case” (2009). Na versão dublada que vai ao ar, Sylvia Salustti e Alexandre Moreno emprestam suas vozes aos protagonistas.

“Um dia, tomei um pé na bunda daqueles que destroem a nossa alma e, sem consolo, fui parar num cinema, para tentar aliviar a angústia, e escolhi, sem querer, uma comédia. Ri tanto, mas tanto que não consegui mais dar valor à minha dor. Curiosamente, a indústria do cinema tem uma tendência a dar valor demais à dor e valor de menos ao riso. Costuma haver um respeito maior das premiações, como o Oscar, por aquilo que dói e não por aquilo que extirpa a dor, mas que nos leva a compreender os desacertos do mundo. O ‘aquilo’ se chama comédia e é o que eu faço, filmando com uma cabeça de produtor: ou seja, rodando tudo rápido, barato e com amigos no set”, disse Apatow ao P de Pop numa entrevista às vésperas da estreia nos EUA de “This is 40”. “Meu interesse é falar dos pequenos sofrimentos que todo mundo tem, mas com uma leveza que trouxe de Hal Ashby, de Woody Allen, de Mel Brooks.Riso é alívio e é verdade”.

Neste momento, Apatow, hoje com 52 anos, está preparando um longa ainda sem título, com Pete Davidson, abordando a vida do humorista a partir do impacto que a tragédia do 11 de Setembro teve sobre sua vida. Marisa Tomei, Steve Buscemi e Bill Burr estão no elenco do projeto, que marca a volta do realizador à direção, depois de um hiato de quase cinco anos. “Descompensada” (“Trainwreck”, 2015), um sucesso de bilheteria com Amy Schumer, que custou US$ 35 milhões e faturou US$ 140 milhões, foi seu último trabalho como diretor, na telona. Na TV e no streaming, ele nunca parou, cuidando de séries como “Love” e “Girls”. “A receita que eu levo para a comédia é sintonizar o riso ao fracasso, o meu e o dos outros”, disse o cineasta, que amargou a rejeição do público quando lançou o que poderia ser sua obra-prima, “Tá Rindo Do Quê?” (“Funny People”, 2009), com seu amigo Adam Sandler e seu parceiro fiel, Seth Rogen. Ali, ele passou a léguas do êxito que teve ao rodar “O Virgem de 40 Anos” (“The 40-Year-Old Virgin”, 2005), transformando Steve Carell numa celebridade. A guerra de Carell para perder a virgindade rendeu US$ 177 milhões na venda de ingressos.

Em 2017, Apatow emplacou seu longa de maior popularidade (e mais bem escrito) “Ligeiramente grávidos” (“Knocked up”), cujo faturamento beirou US$ 220 milhões. Foi de lá que eresgatou os personagens de “This is 40”, o destaque desta madrugada na televisão: a comerciante e microempresária Debbie (Leslie) e o produtor musical Pete (Rudd). Descrito como uma “quase-sequência” da comédia romântica com Seth Rogen e Katherine Heigl , “Bem-vindo aos 40” acompanha o estresse desse casal na semana em que os dois aniversariam, entrando numa maturidade física, emotiva e mental. Debbie sua a camisa para manter aberta sua loja de roupas, cuja balconista (Megan Fox) eleva a libido dos clientes, mesmo sem vender vem. Já Pete batalha contra a falência declarada de sua gravadora, na qual mantém um selo especializado em roqueiros sexagenários. Em sua carteira de talentos está o cantor e guitarrista Graham Paker, autor do lendário álbum “Squeezing out sparks”. Em um inventário de cicatrizes da tolerância diária da vida a dois, vitaminada pela presença de suas filhas com Leslie no elenco (Maude e Iris Apatow), Judd realiza um delicado estudo sobre a arte de ceder e a aritmética de perdoar.

Para Todd McCarthy, da revista “The Hollywood Reporter”, Apatow fez em “Bem-vindo aos 40” “um atrevido e arrebatador retrato familiar”. Scott Foundas, da “Film Comment”, cravou: “É o melhor trabalho de Apatow até 2012.” Há uma sequência antológica, em que as personagens de Iris e Maude discutem o que é mais constrangedor na TV: “Lost” ou “Mad Men”. Os argumentos delas são hilários.

p.s.: Tem HQ italiana… fumetti, como dizem por lá… dos bons chegando ao Brasil: “Brad Barron”, uma saga futurística do quadrinista Tito Faraci sobre invasões de ETs e a preservação da vida na Terra, já está à venda. Fruto de uma campanha de financiamento coletivo feita pelo editor Wagner Macedo, mobilizando leitores de todo o país via web, o personagem (com ecos do ator Kurt Russell em “Fuga de Nova York”) vai estar ao alcance dos brasileiros a partir do dia 20, numa caprichadíssima edição em PB, já à venda online. O site da editora Graphite Design é https://editora.graphitedesign.com.br/.
p.s.2: Falando em fumetti, “Deadwood Dick”, de Michele Masiero e Corrado Mastantuono, tá nas bancas brasileiras, em edição de luxo da Mythos, narrando a saga de um destacamento negro da Guerra de Secessão dos EUA, sob o ponto de vista de um desses militares, que se destaca pela rapidez no gatilho e pela retidão na luta contra o preconceito. A arte de Corrado é de uma beleza singular. Há, na trama, um embate contra índios que causa um debate ético indigesto, mas rico.

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