O bonde de Sally Potter vai atropelar a Berlinale

O bonde de Sally Potter vai atropelar a Berlinale

Rodrigo Fonseca

25 de fevereiro de 2020 | 22h16

Rodrigo Fonseca
Dominado por “Sibéria”, de Abel Ferrara, com todas as suas controvérsias e com toda a sua poesia ao falar sobre exílio, o 70º Festival de Berlim vai ser atropelado nesta quarta-feira pelo combio “The Roads Not Taken” e o motivo de sua atual imponência é seu elenco monumental. Elle Fanning, Javier Bardem, Salma Hayek e Laura Linney estrelam este drama britânico dirigido por Sally Potter e vão levar à capital alemã uma constelação como, há tempos, o evento não via. A realizador é respeitada desde a década de 1990 por “Orlando, a mulher imortal” (1992), maior sucesso de sua trajetória nas telas, que inclui muitos títulos de respeito. Dado o currículo da cineasta inglesa de 70 anos, responsável por cults como “The tango lesson” (1997) e “Ginger & Rosa” (2012), é fácil perceber por que atores de peso toparam trabalhar com ela. Não se sabe ao certo a duração do projeto, mas se espera algo curto. “Tem ótimas diretoras no cinema e no teatro. Mas tem, ao largo do que possa me impressionar, a manutenção da ferrugem nas engrenagens da indústria: se eu, como mulher, tive a chance de fazer uns nove longas, em cinco décadas, meus conterrâneos ingleses homens tiveram, nesse mesmo período, oportunidade e suporte para fazer uns 20, 30 filmes. Veja, não quero soar contraditória: o sexismo direto, agressivo, eu não encarei, por pertencer a uma ala do cinema mais autoral, experimental… mas o preconceito de gênero não deixou de resvalar na minha trajetória”, disse Sally ao P de Pop ao lançar “A festa”, em 2017, também no Festival de Berlim.
Conseguir o “sim” da nata do cinema europeu e do americano, sobretudo de medalhões tipo Bardem é uma habilidade que Sally se orgulha de ter. Em “The Roads Not Taken”, o astro espanhol vive o pai de Elle Fanning, uma jovem que precisa a domar as angústias do verbo “amadurecer”. Cabe a ele compartilhar com ela experiências das diferentes decisões, certas e erradas, que tomou na vida. As decisões de sua diretora partiram de uma reflexão sobre meios de combater a desatenção e a intolerância.

Falando da representação de realizadoras na direção, “Black Milk”, de Uisenma Borchu, aqui lançado no fim de semana, continua sendo um dos longas de maior prestígio desta Berlinale. Neste melodrama egresso da Mongólia, pilotado por uma diretora de teatro de reputação nos palcos, duas irmãs se reencontram para um acerto de contas acerca das tradições de sua terra natal.

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