‘The Zim’: controverso debate anticolonialismo

‘The Zim’: controverso debate anticolonialismo

Rodrigo Fonseca

23 de maio de 2020 | 13h25

“The Zim”: Constance Ejuma e Tongayi Chirisa torcem as (in)certezas morais de um espaço assolado por traumas coloniais

Rodrigo Fonseca
Controverso em seus minutos iniciais, quando parece inverter as discussões raciais inerentes ao jugo imperialista sobre a África, “The Zim”, premiada produção pilotada (com refinamento) pelo ator e cineasta Alexander Bedria, é um filme que subverte expectativas (e desconfianças) jogando holofotes sobre a importância da fraternidade como antídoto para a intolerância. No dia 2 de junho, esta investigação sobre os conflitos do colonialismo no Zimbábue vai estar disponibilizada online, via Vimeo. Recentes refluxos econômicos relacionados à política de Robert Mugabe e de seu sucessor, Emerson Mnangagwa, devolveram aquele país a manchetes de crise, de fome e de disputas de terras. Esse é o foco do trabalho de Bedria, que surpreende pela montagem com ecos de faroeste (à moda Peckinpah) de Anisha Acharya. A fotografia de Matthew Macar (nos) remete a “Walkabout” (“A Longa Caminhada”, 1971), de Nicolas Roeg – ainda que não conscientemente. Bedria entra em cena como Daniel Silva, um fazendeiro que tem suas terras invadidas por um grupo que alega ter o direito de desapropria-lo de sua posse. Mas, além de ter uma mulher grávida (Amanda Wing) a seu lado, Daniel carrega no peito um instinto de proteção em relação a um lugar que sua família construção. E é aí que o cineasta desenha uma discussão necessária: o bem material que é de seu personagem faz parte de um histórico de pilhagem de terras em que colonizadores surrupiaram o que era dos cidadãos ali residentes antes de sua chegada. O debate que o filme detona resvala na controvérsia muitas vezes – e de maneira espinhosa. Mas tudo muda a partir do posicionamento de um par de personagens: Aneni (Constance Ejuma) e seu marido, Zimunya (Tongayi Chirisa, em uma atuação brilhante).

Criado ali, onde é um braço direito para Daniel, Zimunya se sente, também, um legítimo dono daquele espaço. E vai usar a afetividade para tentar apaziguar ânimos, em uma virada radical. O L.A. Shorts corou a produção com um prêmio de melhor filme por seu conjunto de virtude narrativas e seu método para debelar o racismo. Todos, em cena, pelas mãos de Bedria, unem esforços para combater o espectro das dominações coloniais.

O diretor e ator Alexander Bedria

Em 2016, Bedria dirigiu “Desi”, sobre o músico e produtor de TV Desiderio Alberto Arnaz y de Acha III. Ele ainda participou de séries como “Ray Donovan”, hoje no ar no Globloplay.

p.s.: À 0h30 do dia 24, o “Cinemaço” das madrugadas da Globo traz Nicolas Cage no endiabrado “Drive Angry” (“Fúria Sobre Rodas”, 2011), no qual ele encara uma seita satânica.

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