‘The Wild Goose Lake’: brilho ‘noir’ em San Sebastián

‘The Wild Goose Lake’: brilho ‘noir’ em San Sebastián

Rodrigo Fonseca

24 de agosto de 2019 | 10h01

Rodrigo Fonseca
Maior festival de cinema da Espanha e um dos mais prestigiados fóruns de estética audiovisual do mundo, San Sebastián está aí na porta – sua 67ª edição vai de 20 a 28 de setembro – e já assegurou para si uma joia chinesa: The Wild Goose Lake, de Diao Yinan. O longa-metragem foi uma das sensações da seleção competitiva de Cannes. A força dessa produção se relaciona com um processo histórico de representação ligado às narrativas de gênero. No fim dos anos 1990, quando a ambiguidade voltou a ser assunto na ficção, por conta da nada feliz escolha de George W. Bush para concorrer à presidência dos EUA, o noir voltou a ser um filão explorado pelas telas, em parte por servir como crônica de uma morte anunciada: a morte da ética. Àquele momento, Cannes trouxe para seu Palais des Festivals o policial “LA Confindential”, de Curtis Hanson, que revelou uma penca de atores hoje respeitados, como Russel Crowe. Era 1997. Anos depois, em 2006, diante de um novo surto de inquietação nas políticas globais, Brian De Palma foi convidado para abrir Veneza com “Black Dhalia”, tributo a Huston, ao “Scarface” com Paul Muni, a lógicas ambíguas de mundo. Elas vão e voltam. Foi o que se viu, em maio, na Croisette (sempre ela, essa danada), na projeção The Wild Goose Lake.

Raras vezes a representação da violência em sagas sobre crime ganhou contornos plásticos tão virtuosos quanto o deste thriller chinês que esbanja ação ao narrar os esforços de uma mulher para entregar um criminoso em fuga para seus detratores e, com isso, libertar-se de suas dívidas. Yinan tem 22 anos de carreira. Ganhou notoriedade ao rodar “Black Coal, Thin Ice”, thriller igualmente ambíguo que lhe rendeu o Urso de Ouro berlinense.

Sua linha autoral se debruça sobre arlequin(a)s, servidore(a)s de dois ou mais amos, que são capazes de imolar suas convicções em prol de algum bem-estar. É o caso de Liu, vivida pela ótima Gwei Lun Mei, que estabelece uma relação de fidelidade, apaixonamento e traição com o criminoso Zenong (Hu Ge). A cabeça dele numa bandeja há de libertá-la. O preço vai ser pago na forma de uma ciranda de perigos filmados como uma ciranda de quiprocós que lembra a estética do John  Woo de “O matador”. A fotografia de Dong Jinsong explora toda a miséria de um universo de excluídos que acreditam se dignificar no crime.

Mas as belezas da programação de San Sebastián.67 não param por aí…

Primeira mulher cineasta negra a concorrer em Cannes nos 72 anos de história do festival, a francesa de origem senegalesa Mati Diop saiu da Croisette este ano com o Grand Prix, o Grande Prêmio do Júri do evento. É a honraria mais disputada do festival francês depois da Palma. Ela foi laureada com o drama romântico “Atlantique”, que San Sebastián já assegurou para sua seleção. É uma trama com múltiplas camadas tendo como base a dor de uma jovem de Dakar que, em meio a um casamento arranjado, sonha com a volta de um namorado operário que partiu oceano adentro.

“É triste saber que só em 2019 Cannes teve uma diretora negra em sua competição. Estou aqui impelida pelo desejo de ver mais pessoas negras nas telas. Minha presença aqui é só o começo para uma estrada longa”, disse a diretora de 36 anos, que é sobrinha do cineasta Djibril Diop Mambéty (1945-1998), de “Hienas” (1992). “As histórias que eu preciso contar tornam o passado e o futuro uma força circular, que faz os imigrantes uma representação fantasmagórica do desamparo, mas também da resistência”.

De Cannes, a curadoria de San Sebastián importou ainda “Hatsukoi”, do artesão da adrenalina Takashi Miike. Batizado de “First love” em mercados não asiáticos, o novo thriller do Quentin Tarantino do Japão acompanha o empenho de um pugilista fragilizado por uma doença terminal para ajudar uma jovem acossada por delírios persecutórios num embate contra uma guerra de gangues. As cenas de ação exuberantes surpreenderam mesmo os fãs do prolífico cineasta. “Eu me inspiro muito nos clássicos de samurai de Kurosawa, ainda que eles já não sejam mais um objeto de estudo para as novas gerações no Japão. Mas meu empenho não está em roubar ideias de Kurosawa e sim em levar questões do presente, do meu mundo, para um universo que ele lapidou”, disse Miike ao P de Pop.

Ainda da Croisette chega à Espanha o brilhante “Beanpole”, de Kantemir Balagov (Rússia). Seu foco está nos escombros da II Guerra Mundial, em solo soviético. Lá, duas mulheres buscam reinventar suas vidas e buscar um sentido para explicar a tragédia que se abateu sobre elas. Montagem impecável deste drama que virou sensação da mostra Un Certain Regard, tendo conquistado o Prêmio de Direção e o Prêmio da Crítica, dado pela Fipresci. Esse entra na seção Perlak, na qual é um dos títulos mais esperados.

E não acabou o bonde de Cannes em San Sebastián, pois, de lá, foram trazidos ainda o novo Ken Loach (“Sorry We Missed You”) e a comédia de tons assistencialistas e motivacionais “Hors Norme”, de Eric Toledano e Olivier Nakache (a dupla de “Intocáveis”). De Berlim veio o comovente drama chinês “So long, my son”, de Wang Xiaoshuai, que traça um paralelo entre as transformações sociais da China e o período de 30 anos de luto de um casal, atomizado pela perda de um filho. Na capital alemã, em fevereiro, o longa conquistou os Ursos de Prata de melhor atriz e ator, dados a Yong Mei e Wang Jingchun.

Estrelado por Shirley Cruz, a Gláucia da novela “Bom Sucesso”, por José Loreto e por Débora Nascimento, além de um elenco de talentos egressos de periferias do RJ, o filme “Pacificado”, filmado em solo carioca pelo texano Paxton Winters, vai representar o Brasil na competição pela Concha de Ouro do evento. Nos próximos dias, San Sebastián ainda anuncia mais atrações.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: