‘The Shallows’ ganha sobrevida em mostra de cults

‘The Shallows’ ganha sobrevida em mostra de cults

Rodrigo Fonseca

27 Dezembro 2016 | 09h22

Blake Lively pode virar aperitivo nas mandíbulas do tubarão de

Blake Lively pode virar um aperitivo nas mandíbulas do tubarão de “The Shallows”

RODRIGO FONSECA

Numa repescagem de cults que marcaram o ano em salas de exibição nos EUA e no Velho, o recém-inaugurado Estação Net Barra Point, no Rio de Janeiro, foi buscar no fundo do mar um thriller zoológico orçado em US$ 17 milhões, cujo faturamento no exterior beirou US$ 119 milhões: The Shallows. Por aqui, o longa-metragem chegou com o título de Águas Rasas. Em solo carioca, ele terá projeção na Barra da Tijuca nesta quarta, às 16h15.

Desde 1978, quando Jamie Lee Curtis fugiu das lâminas afiadas de Michael Myers no Halloween de John Carpenter, estandardizou-se uma tendência do horror – o slasher – na qual um psicopata movido pelo instinto de matar arrastar-se-ia por aí, portando algum tipo de instrumento cortante, à cata de sangue fresco para derramar. Estetizou-se ali que haveria sempre uma mulher como alvo do ferrabrás em questão, não tanto por uma relação de fragilidade feminina, mas sim como um sinal dos tempos, como um indicativo de que só a inteligência e o coletivo de intuições das mulheres poderia debelar uma força do mal transcendente a qualquer normativo humano. Foi assim em Sexta-Feira 13. Foi assim em A Hora do Pesadelo. Foi assim em Pânico. E foi e será assim – sempre assim – em qualquer franquia na qual um serial killer estiver faminto para conjugar o verbo matar. Até monstros sem consciência tiveram esse traço que favorecia o empoderamento femino, vide Mimic (1997), de Guillermo Del Toro, com Mira Sorvino nas presas de artrópodes, ou A Relíquia (também de 97), de Peter Hyams, com a hoje esquecida Penelope Ann Miller a correr de lagartos ameríndios. Só faltou um tipo de psicose neste pacote: a psicose animal. A psicose daquele que o cinema – via o midas Steven Spielberg – elegeu como sendo o mais feroz dos animais: o tubarão. Eis que surge The Shallows. E um ciclo se fecha.

Uma das mais talentosas atrizes de Hollywood na atualidade, capaz de ultrapassar mole, mole o rótulo de boazuda ao qual foi engavetada, Blake Lively é a Jamie Lee Curtis deste thriller de horror com H2O, capaz de atualizar valores de gênero (sexual e cinematográfico) ao colocar uma loura como antagonista de um Norman Bates das águas.  A trama é um fiapo: estudante de Medicina vai surfar nas praias do México e é acossada por um tubarão que fará de tudo para abocanhar-lhe as coxas roliças. E ao longo de 86 salíferos e feéricos minutos, ela fará de tudo para debelar a mandíbula do bicho de se fechar em volta de seu pescocinho salpicado de parafina.

É filme-fliperama: tubarão vem, loura vai. É adrenalina em doses fartas. Mas como tem uma cabeça que pensa ação e medo por trás de tudo – a cabeça do cineasta catalão Jaume Collet-Serra, o mesmo de A Órfã (2009) e de Desconhecido (2011) – o cozido ferve na pressão estética precisa. Há enquadramentos rigorosos. Há ritmo de edição sem descompasso com a narrativa. Há uma investigação da Natureza como fábrica de perigos, sem que isso soe antiecológico. E Jaume, que já dirigiu grandes atrizes (Vera Farmiga, Diane Kruger, Julianne Moore), sabe dar a Blake deixas – e tomadas de plano médio ou de close – para a força feminina brilhar.

Nesta terça, o Estação Net Barra Point exibe Mistério na Costa Chanel, de Bruno Dumont, às 15h45; o obrigatório Os Belos Dias de Aranjuez, de Wim Wenders, às 18h30; e A Garota Desconhecida, (o pior filme) dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, às 20h45.