‘The Lighthouse’ assombra as noites da Espanha

‘The Lighthouse’ assombra as noites da Espanha

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2019 | 04h34


Rodrigo Fonseca
Comparado a Bergman, em sua passagem pelas mostras paralelas da Croisette, o paiol de pólvora psicológica chamado “The Lighthouse”, ganhador do Prêmio da Crítica da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), vai ser exibido nesta sexta-feira no Festival de San Sebastián. Em sua 67ª edição, o evento espanhol inicia esta manhã suas atividades, e vai até 28 de setembro. Com estreia nos EUA prevista para 18 de outubro, o thriller psicológico dirigido por Robert Eggers, de “A Bruxa” (2015), será projetado em solo hispânico na seção Perlak. Entram ao lado dele nessa seleção “Ema”, de Pablo Larraín; “Light of my life”, de Casey Affleck; o desenho “Weathering with you”, de Makoto Shinkai; e “Portrait de la jeune fille em feu”, de Céline Sciamma, que venceu a láurea de melhor roteiro em telas cannoises, e também ganha projeção nesta sexta no festival, que terá o irlandês Neil Jordan como presidente do júri. Ele coordenará um time de jurados na avaliação de uma leva de 17 longas-metragens, começando pelo drama “Blackbird”, de Roger Michell, que abre a programação. O Brasil está no páreo com “Pacificado”, drama sobre o ato contínuo de resistência de quem vive em periferias cariocas. A direção é de Paxton Winters e a produção de Darren Aronofsky, com Shirley Cruz, Débora Nascimento e José Loreto no elenco. Mas a maior aposta para o prêmio principal, a Concha de Ouro, é “Zeroville”, de James Franco, que traça um painel dos tumultuados bastidores da Hollywood de 1969.
Nas raias do calafrio, “The Lighthouse” é uma experiência narrativa que esgarça as fronteiras do jogo cênico até o limite do sufoco que reside na transcendência, dando ao perseverante ator Robert Pattinson (o novo Batman) uma paga à altura de seu esforço. Ele galga uma borda de abismo que lembra Jack Nicholson em “O Iluminado”. São filmes da mesma enfermaria. Cannes foi ao delírio. Na direção, Eggers confirma seu domínio pleno das ferramentas da insanidade e das trevas. Nunca uma sereia foi tão aterrorizante nas telas. Mas não se deve falar dela. Devemos vê-la, nas telas, no mistério.
Ganhador de um merecido prêmio de melhor direção em Sundance em 2015, A Bruxa tinha em si um respeito canino pelos cânones clássicos do terror, entregando ao espectador aquilo que mais se espera desta linhagem – ou seja, sustos – mas o faz caminhando por uma selva de signos quase animalescos, primevos, do masculino e do feminino . Atuações primorosas, sobretudo a da atriz Anya Taylor-Joy, alternam espaço com um personagem para entrar na História das Trevas: o bode Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito, até hoje – é um filme vivíssimo. Porém, o que mais rendia solidez ao filme, e ainda rende, é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. Eggers caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fêmeas – o Ingmar Bergman de A Fonte da Donzela e o Carl Theodor Dreyer de A Palavra – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo. O debate plástico e cinéfilo aberto lá volta em “The Lighthouse”. Mas agora não há como se falar de gêneros. Há como se debater a sanidade, num ambiente de abandono, de bebida e de opressão servil. É um filme sobre o servilhismo tóxico, sobre a submissão profissional que enlouquece pelo desamparo.
Seção paralela à disputa pela Palma de Ouro, voltada para projetos de alta voltagem autoral, a Quinzena encontrou no novo filme de Eggers, escrito por ele com seu irmão, Max, o que parece ser o grande tesouro de seu garimpo estético de bons filmes de 2019. Apoiado em uma fotografia em preto e branco (assinada por Jarin Blaschke) de um requinte diferente de tudo o que se viu em Cannes este ano, o longa-metragem se baseia em dois personagens confinados em um farol de uma ilha da Nova Inglaterra em 1820. Pattinson é o faroleiro aprendiz e Willem Dafoe é seu mestre. Logo no começo, uma cena de embrulhar estômagos testa o talento e a frieza do astro da franquia “A saga Crepúsculo” (2008-2012): seu personagem mata uma ave do mar, um albatroz, esmagando-o violentamente no chão.
Existe uma tensão crescente naquele espaço onde os dois homens de diferentes idades e de temperamentos distintos estão confinados. “Meu irmão, Max Eggers, propôs para mim um enredo sobre fantasmas em um velho farol. Juntei com referências a fatos reais de jornais do século XIX e a referências à literatura do mar, como ‘Moby Dick’”, disse o diretor, que mostra uma sereia no filme, testando a lucidez dos personagens e da plateia.

Ícone romântico de quem adolesceu nos anos 2000, tendo a franquia “A Saga Crepúsculo” como referência afetiva, Pattinson resolveu mudar a vida em 2012, ao se aproximar do diretor canadense David Cronenberg com o desejo de trabalhar em “Cosmópolis”. Ele e Cronenberg se aproximaram de novo em “Mapas para as estrelas” (2014). De lá para cá, ele privilegiou filmes de cineasta mais interessados em desafiar regras do cinema do que em lotar salas de exibição, como Claire Denis (com quem filmou “High life”) e os irmãos Josh e Bennie Safdie (com os quais fez “Bom comportamento”). É um ator em evolução, que comove a plateia com sua busca por reinvenção.
No ebó cinematográfico de Eggers, onde Pattinson beira a barbárie, paus, pedras e luzes que cegam são ferramentas para nos lembrar de que do pó viemos… mas nem todos a eles voltaremos.

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