‘The Heartthrob’: ‘O Galã’ no Marché de Cannes

‘The Heartthrob’: ‘O Galã’ no Marché de Cannes

Rodrigo Fonseca

21 de junho de 2020 | 10h29

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Cannes não teve chance de realizar sua disputa anual pela Palma de Ouro – embora tenha anunciado uma séries de títulos diferenciados com sua logomarca, com inéditos de Naomi Kawase, Steve McQueen e Thomas Vinterberg, além do brasileiro “Casa de Antiguidades” -, mas botou de pé sua seção de mercado, o Marché du Film, que nesta segunda-feira põe em exibição um novo trabalho de um mestre de nossas telas: o paulista Francisco Ramalho Jr. Na tarde deste 22/6 (14h lá, 9h aqui), a sala Olympia, da Croisette, exibe, para distribuidores, pra exibidores e pra representantes de TVs e streamings, “The Heartthrob”, o título internacional do show de simpatia “O Galã”, lançado aqui em 2019. É uma chance de o nome de Ramalho (que produziu o oscarizado “O Beijo da Mulher-Aranha”) brilhar em solo europeu. E o currículo dele é invejável. “À flor da pele” (1977) e “Besame Mucho” (1987) são radiografias geracionais que tomaram o cinema nacional de assalto, cada um à sua época, por um teor existencialista de uma poesia que raras vezes os retratos afetivos do audiovisual brasileiro alcançou: mérito do olhar que Ramalho tem sobre as vicissitudes do querer. Famoso como produtor, responsável por joias como “Coração Iluminado” (1998), de seu habitual parceiro, Hector Babenco (1946-2016), Ramalho ganhou prestígio como cineasta ao filmar “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, em 1978, aplicando suas inquietações existenciais aos códigos naturalistas daquele marco da literatura. Realizador bissexto, com poucos (mas sempre preciosos) longas-metragens em uma carreira de cinco décadas, ele regressa agora à telona com uma comédia sobre um ator (Thiago Fragoso) que busca uma reinvenção na carreira, com a ajuda do irmão. Fiuk, Christine Fernandes e Luiz Henrique Nogueira são os demais destaques de seu elenco nesta produção, lançada na última quinta. O caminho para entender a força narrativa dessa longa passa por patrimônios valiosos do cinema humorístico, sobretudo por seu perfume de Frank Tashlin (1913-1972).

Autor de piadas para os Irmãos Marx e Lucille Ball, animador e realizador de filmes que refinaram o humor de Jerry Lewis na telona, Tashlin deu à comédia hollywoodiana dos anos 1950 uma excelência singular (mas ainda pouco reconhecida) pra lidar com as inaptidões inerentes à timidez. Tipos tímidos brotam de seus clássicos do riso como “Artistas e modelos” (1955), num esforço de dar ao filão cômico uma dimensão de crônica de costumes. Poucos diretores – nos EUA, só Peyton Reed, de “Sim, senhor” – foram pelas vias de Tashlin, mas, no Brasil, o vaudeville “O galã” tem forte aroma tashliniano, graças à cultura cinéfila de Ramalho Jr. Um estudioso dos engasgos morais que levam o amor ao boicote, como se viu em sua gema “Anuska, Manequim e Mulher” (1968), ele se debruça aqui sobre veredas da gargalhada, com base na peça “Meio irmão”, de Emílio Boechat. Faz com ela algo similar ao que Tashlin criou no doce “Em busca de um homem” (1957): uma investigação sobre os afetos no universo audiovisual. Thiago Fragoso é seu Dean Martin: ele vive Júlio, um ator à cata de sucesso que busca um papel numa novela em meio à reinvenção de suas emoções. Já Luiz Henrique Nogueira (impecável em cena) é o lado Lewis deste quiprocó: ele vive Beto, o autor do folhetim em que Júlio, seu mano mais moço, deseja atuar. Entre peripécias por amor, vaidade e rivalidade com um astro jovem (Fiuk), Júlio e Beto revisam desavenças e afinidades numa montagem (de Manga Campion) que nunca deixa o ritmo escorregar e disfarça diálogos menos inspirados. É comédia à moda antiga… à moda Tashlin.
“Busco compreender os outros através de minha profissão. Não me julgo, vivo, realizo”, definiu-se Ramalho em uma entrevista ao JB na época do lançamento de “O Galã”. “Abordo pela comédia a dificuldade de profissão do ator, da solidão do escritor. Falo também do quão difícil é a fraternidade, mas em tom bem humorado, sem dramas, ainda que toda comédia tenha dramas em seu interior”.

p.s.: Falando em Peyton Reed, esta tarde, às 13h50, a Globo exibe o maior sucesso do diretor: o delicioso “Homem-Formiga” (2015), com Paul Rudd (dublado por Marcio Araújo) no papel do inventor Scott Lang. Na sequência, às 16h, a emissora carioca projeta um outro fenômeno de bilheteria: “Jurassic World”, também de 2015.

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