‘The Dinner’: mesa posta para Richard Gere se reinventar

‘The Dinner’: mesa posta para Richard Gere se reinventar

Rodrigo Fonseca

06 Maio 2017 | 10h35

Richard Gere é um congressista às voltas com uma tragédia familiar no feérico “The Dinner”, em cartaz nos EUA

RODRIGO FONSECA

Em cartaz no Brasil no obrigatório Norman: Confie em Mim, o eterno galã Richard Tiffany Gere, hoje com 67 anos, está causando barulho na seara indie do cinema americano com um drama de ecos políticos sobre o desgoverno moral dos EUA, que chegou neste fim de semana às telas americanas, egresso do Festival de Berlim: The Dinner. Esta produção dirigida pelo israelense Oren Moverman (O Mensageiro) foi o único representante dos Estados Unidos na competição pelo Urso de Ouro em 2017, e lá o filme (de sofisticada estrutura de roteiro) acabou virando uma plenária para toda a Europa bater no presidente Donald Trump.  

Se Trump fosse convidado para o jantar retratado no filme, eu não estaria à mesa”, disse Gere na Berlinale, ao lado dos colegas de elenco Laura Linney e Steve Coogan.

Urdido a partir de uma sólida arquitetura de script, no qual cada ato da ação dramática é organizado como uma das etapas de um jantar de gala – aperitivo, prato principal, sobremesa, digestivo -, este drama de Moverman retrata uma ceia entre dois irmãos e suas mulheres. Paul (Coogan) é um professor de História obcecado pela Batalha de Gettysburg (um pilar da Guerra Civil dos Estados Unidos) e Stan (Gere, em seu melhor desempenho em anos) ocupa um posto no Congresso, sendo interrompido por assessores todo o tempo, ao longo da janta. Os primeiros 20 minutos são de um humor rascante, pela implicância de Paul com o excesso de luxo do restaurante e com o modo de vida aristocrático de seu maninho. Porém, ali pra diante, a partir de uma série de flashbacks elucidativos do perfil de cada irmão, vemos uma batalha ética sobre responsabilidade moral, ligando aquelas famílias, envolvendo um crime contra uma sem teto. Para OvermanThe Dinner seria “uma metáfora para o pecado original” e já, para Gere, o longa seria mais uma observação moral sobre nossa intolerância.

 

Embora gravite entre a culpa e a alienação, Stan assume, sempre que necessário, um esnobismo nas raias da crueldade, o que afina o ferramental dramático de Gere e nos mostra o quão complexo sua composição de personagens pode ser. Apesar de toda a notoriedade que tipos românticos como os de Uma Linda Mulher (1990) e A Força do Destino (1982) lhe deram, Gere sempre serviu-se melhor da maldade, da canalhice ou da ambivalência moral para se desconstruir nas telas. É assim desde À Procura de Mr. Goodbar (1977), no qual atormentava a vida promíscua de Diane Keaton, e de Justiça Cega (1990), no qual encarnou a síntese da corrupção sob um distintivo da polícia de Los Angeles. Gere sempre viveu seus melhores momentos do lado de lá (o do erro) da lei ou da Casa Branca.