Terry Gilliam supera expectativas com o esplendoroso ‘Don Quixote’: filme-fênix para a carreira do diretor

Terry Gilliam supera expectativas com o esplendoroso ‘Don Quixote’: filme-fênix para a carreira do diretor

Rodrigo Fonseca

18 Maio 2018 | 12h02

Rodrigo Fonseca
Pelas contas de Terry Gilliam, pelo menos as que ele anuncia nos créditos de abertura de seu “The Man Who Killed Don Quixote“, 25 anos foram necessários para o sonho de verter a prosa de Cervantes em um longa-metragem se tornar uma verdade. Mas a julgar pela delirante viagem aos confins da fabulação exibido à crítica estrangeira presente no Festival de Cannes, valeu cada minuto da espera: o velho Gilliam de “Brasil, o Filme” (1985) e “Os 12 Macacos” (1995) está de volta. O filme é esplendoroso, do começo ao fim. Um dos melhores (e mais vivos) de Cannes. Mais do que isso: Adam Driver tem uma atuação que pode dar a ele um Oscar, no papel de um cineasta transformado em Sancho Pança. Ele é o alter ego do próprio Terry, que dirige este diálogo metalinguístico com (o já metalinguístico) livro de Cervantes com um requinte plástico e um domínio narrativo à altura de seus trabalhos de juventude. É o renascimento de um grande realizador, dono de um código narrativo próprio. É uma releitura swiftiana, como é típico de Gilliam, porém muiro romântica, pautada pela evasão no tempo e no espaço.

A atuação de Adam Driver é digna de Oscar, como um Sancho Pança pop, ao lado de Jonathan Pryce

Jonathan Pryce também esbanja romantismo como Javier, sapateiro de uma vila espanhola que, anos atrás, viveu Quixote no filme de conclusão de curso de Toby (Driver, em brilhante atuação). No momento em que volta à Espanha, a fim de rodar um comercial, Toby se vê impelido a voltar às raízes. Por isso decide encontrar Javier, que, tomado pelo contato com as artes, passou a crer que é o próprio Cavaleiro da Triste Figura. Javier pensa que é Quixote e vê em Toby seu Sancho ideal, arrastando o garoto para lutar contra os gigantes do mundo de hoje.
A direção de arte exuberantes compensa a precariedade quantitativa de efeitos visuais, mas os poucos que o filme tem são ótimos. Incomoda no roteiro a maneira como o Estado Islâmico é citado, pois Quixote é inimigo dos mouros. Mas esta referência por vezes rude logo é diluída num oceando de fantasia, no qual cinema, literatura, loucura e desejo se completam num filme dionisíaco, logo, vivo. Nem todo mundo curtiu o humor físico, à la filmes dos Trapalhões. Mas quem embarcou nessa trip curtiu ver o gênio de Gilliam se renovar.