Terror goiano leva medo e reflexão social a Tiradentes

Terror goiano leva medo e reflexão social a Tiradentes

Rodrigo Fonseca

27 Janeiro 2017 | 15h40

Thriller de horror goiano é atração de hoje em Tiradentes:

Thriller de horror goiano é atração de hoje na Mostra de Tiradentes: “Terra e Luz”, de Renné França, é um exercício poético e político do sobrenatural

RODRIGO FONSECA

Desesperado diante do ronco em sua barriga vazia, um dos raros seres humanos sobreviventes da praga vampírica que infesta Terra e Luz – instigante thriller de horror goiano em cartaz nesta madrugada na 20ª Mostra de Tiradentes – arranca uma página de uma revista à la Veja, com um suculento anúncio de lasanha, e o devora, como se o papel pudesse saciar seu apetite de dias sem comer. Cena mais desesperadora do que essa só a que ele morde um rato, aflito para se manter de pé. A aflição do personagem do primeiro longa-metragem dirigido por Renné França não é explorada com sadismo hollywoodiano, mas sim vista sob uma ótica reflexiva, como uma metáfora universal da fome em locais desolados e tempos de guerra. Trata-se de um raro casamento (em harmonia plena) entre realismo social e fantasia, de cunho existencial, no cinema de gênero latino-americano. Lembra até Vampiro$ (1998), de John Carpenter, pelo rigor de sua artesania, pelo perfume de desesperança e pelo visual esturricado, de heróis enlameados, se é que o protagonista (vivido por Pedro Otto, em firme desempenho) possa assim ser chamado. Fica a dúvida.

Os sobreviventes do cerrado

Os sobreviventes do cerrado

Aliás, sobram dúvidas ao fim da projeção deste enxutíssimo (74 minutos) terror no cerrado, mas todas ligadas àquele universo de desolação, às criaturas de manto preto que atacam à noite, famintas de sangue e carne de mamíferos e ao espírito humano, capaz de qualquer falência moral diante do desespero. Certezas, podemos elencar três: 1) a fotografia do filme, assinada por Carlos Cipriano, é uma experiência visual exasperadora no jogo com a iluminação natural de Goiás; 2) a direção do filme investe na reflexão sociológica sem perder o ritmo febril do filão; 3) com sua exibição, nesta sexta, Tiradentes cumprirá uma vez mais a vocação de seu curador, Cléber Eduardo, de construir um “estado de exceção” audiovisual, na amostragem do nosso cinema, garimpando o que há de mais potente fora do eixo.

 

Como filme de estreia, Terra e Luz carrega em si um frescor de pesquisa, risco e  experimentação na maneira como distribui os arquétipos, desembrulhando-os de cascas pop óbvias. A saga do homem (Otto) que sai errante por um território de pedras, lama e terra seca, no qual, a cada noite, vampiros saem para caçar, carrega uma aura mítica (e mística) de diálogo com uma tradição expressionista, deslocada para um palco do Real. Um real faminto. Um real 100% brasileiro.

 

Tiradentes encerra a edição 2017 de seu festival anual neste sábado, com a entrega de prêmios de júri popular e do júri oficial da seção Aurora, a menina dos olhos do evento, na qual concorrem sete longas: Baronesa, de Juliana Antunes (MG); Corpo Delito, de Pedro Rocha (Ceará),Eu Não Sou Daqui, de Luiz Felipe Fernandes Alexandre Baxter (MG); Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava, de Fernanda Pessoa (SP); Sem Raiz, de Renan Rovida (SP); Subybaya, deLeo Pyrata (MG); e Um Filme de Cinema, de Thiago B. Mendonça (SP). Como sua atração de encerramento, a Mostra reservou A Cidade Onde Envelheço. Exibido na Europa em 2016, em mostras competitivas em Roterdã e em San Sebastián, esta produção luso-brasileira dirigida por Marília Rocha, contemplada com o prêmio de melhor filme no último Festival de Brasília, narra o reencontro de duas amigas portuguesas em Belo Horizonte, onde as divergências de comportamento entre as duas vai ameaçar aquela relação.