Terremoto musical agita a bilheteria do cinema romeno

Terremoto musical agita a bilheteria do cinema romeno

Rodrigo Fonseca

14 de julho de 2017 | 15h24

“6.9 On The Richter Scale”, dirigida por Nae Caranfil, é o sucesso do ano na safra de 2017 da Primavera Romena

RODRIGO FONSECA
Não bastasse ser o polo irradiador do mais potente e longevo movimento do cinema autoral internacional – a Primavera Romena –, conquistando, à força dele, prêmios pelo mundo afora, o país de onde veio a obra-prima como Instinto Materno (2013) e o cult Além das Montanhas (2012) ainda vive hoje um crescimento de bilheteria como nenhum outro conterrâneo seu de Europa. A Romênia experimentou um aumento de 25% em seu parque exibidor na comparação com os números de 2016. E parte desse aumento se devem a uma produção local, com tintas musicais, chamada 6.9 On The Richter Scale, dirigida por Nae Caranfil. Vista por 30 mil pagantes (um estouro para os padrões de filmes ditos “de arte” de lá), esta comédia explora as angústias de um ator às voltas com uma mulher em crise, um pai manipulador, um espetáculo teatral de canto e dança cheio de quiproquós e um terremoto iminente. Seu diretor filmou em 2014 uma coprodução com os EUA, chamada Mais Perto da Lua, com Vera Farmiga.

 

Elogiado pela crítica, sobretudo pelo dinamismo de seu roteiro, 6.9 On The Richter Scale dá uma nova roupagem às narrativas cômicas do audiovisual de Bucareste. Como sua clorofila, a Primavera Romena investe no real, no humor negro e na falência estatal. Essa é a base do movimento iniciado há 12 anos, quando A Morte do Senhor Lazarescu (2005), de Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica da Romênia, na qual investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre motes para que se aborde a decadência politica (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, ganhador da Palma de Ouro em 2007; California Dreamin’, de Cristian Nemescu; e O Tesouro (2015), de Corneliu Porumboiu, e Sieranevada, do já citado Puiu.

 

Outro filme romeno que brilhou no circuito de lá, com 25,1 mil ingressos vendidos, foi Ana, Mon Amour, de Cãlin Peter Netzer, laureado com o prêmio de melhor montagem no Festival de Berlim. Tem muita coisa não dita entre Ana (a majestosa Diana Cavaliotti) e Toma (Mircea Postelnicu, de alta voltagem trágica), dois estudantes de Letras que se conhecem na universidade e passam anos juntos, indo do querer na plenitude ao desmame lírico em uma aposta mútua na pertença.