Terra deu, Terra come, Na Real rumina

Terra deu, Terra come, Na Real rumina

Rodrigo Fonseca

10 de agosto de 2020 | 16h23

Rodrigo Siqueira, diretor mineiro premiado no É Tudo Verdade em 2010, com “Terra Deu, Terra Come”, fala sobre sua estética no seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Tá acabando o evento mais surpreendente do cinema brasileiro neste 2020 de garganta seca e de respirações abafadas, o seminário Na Real_Virtual, iniciado no dia 20 de julho pelo crítico Carlos Alberto Mattos e pelo cineasta Bebeto Abrantes: o que nasceu para ser um papo sobre a arte de documentar, virou um encontro de gigantes e uma lavoura de ideias acerca do rumo ético e estético de nosso audiovisual. Pra saber das pérolas que estão sendo garimpadas nesse simpósio, basta consultar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Já deram 120 pessoas (e bota mais aí) na “sala” organizada no Zoom pelo produtores Marcio Blanco e Kerlon Lazzari, da Imaginário Digital, falando com titãs como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca, Joel Pizzini e Gabriel Mascaro. Faltam ainda Emílio Domingos (nesta sexta), Marcelo Gomes (nesta quarta) e Rodrigo Siqueira, esta noite, 19h, a levantar a noção de que “em uma mesma pessoa há o autor, o personagem e o ator”. Ele virou uma das promessas de renovação das narrativas documentais do Brasil com “Terra Deu, Terra Come”, melhor filme brasileiro no festival É Tudo Verdade, em 2010. Seu “Orestes” (2015), um centauro de tragédia grega com reflexão sobre a brutalização policial cotidiana, é o foco do papo desta segunda na maratona teórica, que há de deixar saudades e frutos.
“O bom do cinema do Rodrigo Siqueira, como já disse João Moreira Salles, é a gente não saber muito bem o que está vendo”, define Mattos, que vai conduzir a sabatina com Abrantes. “Explorando os limites híbridos entre realidade e fabulação, registro e encenação, Rodrigo revela um pouco mais da complexidade e da riqueza do planeta documentário”.

Em “Terra Deu, Terra Come”, perfumados pelo aroma amadeirado da prosa de João Guimarães Rosa (um ourives da língua, aclamado mundialmente por “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”), acompanhamos o rito de auto-mise-em-scène de Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos. Na longa-metragem, Seu Pedro comanda, como mestre de cerimônias, o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, morto aos 120 anos, num ritual em que vêm à tona as raízes africanas de Minas Gerais. “Seu Pedro é parte de um mundo tipicamente rosiano”, explica Siqueira. “Ele era um exímio contador de histórias e suas narrativas obedecem à tradição da literatura oral. Guimarães Rosa fez dessa tradição matéria para construir sua obra. No filme, procurei estabelecer uma forma que dialogasse com a forma literária de Rosa, mas antes de tudo que obedecesse ao fluxo narrativo do próprio Pedro. A forma rosiana já estava na forma que seu Pedro contava histórias, algo como a coisa dentro da coisa, a história dentro da história, o causo dentro do causo, a variação de tons e o encarnar outros personagens no próprio ato de narrar. E isso foi levado para o filme”.
Objeto de estudo da noite, “Orestes” faz uma adaptação da tragédia grega de Ésquilo para a realidade brasileira. Com um júri simulado e uma série de psicodramas, a longa coteja dois momentos da nossa história: a ditadura militar dos anos 1970 e o presente, da violência policial.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

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