Teresa Villaverde põe a mola burguesa no ‘Colo’

Teresa Villaverde põe a mola burguesa no ‘Colo’

Rodrigo Fonseca

15 Novembro 2017 | 12h52

Alice Albergaria Borges vive Marta, jovem em reeducação afetiva em “Colo”

Rodrigo Fonseca
Apesar da proximidade da língua, o cinema português é uma ave rara em nossas telas, o que torna necessário a celebração da passagem de qualquer grande filme luso cá por estas bandas, sobretudo se for um filme com a potência de Colo, candidato dos nossos patrícios ao Urso de Ouro do último Festival de Berlim. Estreia nesta quinta e merece ser visto com presteza e atenção. Com seus 136 dolorosos, porém tocantes minutos, esta aula sobre efeitos afetivos das crises financeiras, dada pela diretora lisboeta Teresa Villaverde na forma de um drama construído com base na delicadeza, foi o mais possante exercício de dramaturgia do evento alemão, usando sua leeeeeenta narrativa para compor um ensaio desesperado sobre carência. A trama aqui narrada pela realizadora de cults como Os Mutantes (1998) mostra a destruição de uma família. O pai (João Pedro Vaz) está desempregado. Vivida pela ótima Beatriz Batarda, a mãe é o arrimo desse comatoso clã, não tempo para cuidar de si nem da filha (Alice Albergaria Borges, um deslumbre), pois está ameaçada de perder seu trabalho noturno. O corte da luz da casa deles coroa o processo de decadência daquele lar, em meio ao percurso de amadurecimento da adolescente que se descobre mulher ali naquela residência cheia de sombras. São impressionantes os enquadramentos da fotografia construída por Acácio de Almeida, carregados de uma esfumaçada angústia proustiana.

Não quis que o título do meu filme, Colo, fosse traduzido, pelo efeito sonoro e sinestésico que esta palavra gera, ao sugerir calor humano mesmo para quem não entende seu significado. E para quem fala português, ela significa embalar… proteger… preservando em si uma aura de mistério”, disse Teresa ao P de Pop. “Crises são tempos de solidão. Essa é uma história sobre pessoas solitárias e sobre os silêncios entre elas. O silêncio demanda tempo para ser decantado e sorvido. Silêncio é um modo de escuta. É necessário escutar um Portugal que já se foi… mas pode voltar”.