Terence Davies busca a lírica de Sigfried Sassoon

Terence Davies busca a lírica de Sigfried Sassoon

Rodrigo Fonseca

18 de setembro de 2021 | 19h39

Terence Davies participou online da coletiva de imprensa de “Benediction”

Rodrigo Fonseca
Dois poemas bastam para traduzir, em palavras, a controversa figura vivida (com delicadeza) pelo ator Jack Lowden no novo longa-metragem do veterano cineasta inglês Terence Davies lançado mundialmente neste sábado, em competição pela Concha de Ouro do 69º Festival de San Sebastián, no norte da Espanha: “Benediction”. Uma figura chamada Siegfried Loraine Sassoon (8 de setembro de 1886 — 1 de setembro de 1967), que a maratona cinéfila espanhola aprendeu a admirar. Os versos:

“Que falta faz? — teres perdido as pernas?
Todos te irão tratar com simpatia
E não deves mostrar que te angustia
Sentir que os outros correm disputando
Seus lugares à mesa das tabernas.
Que falta faz? — teres perdido a vista?…
Aos cegos há trabalho assegurado
E todos vão tratar-te com cuidado
Quando virem teu rosto que relembra
Voltado para a luz que não avista.
Que Falta faz? — teres sonhado em vão?…
Podes beber: esquece e alegra um pouco;
Ninguém há de pensar que estejas louco.
Pois sabem que lutaste pela pátria
E por isso jamais te afligirão.”

(Tradução de Ivo Barroso)

“Quem quer palavras no bosque de outono
Onde a cor termina?
Ali, velhas histórias e glórias contadas
— O vento as elimina.
Estreita-se a razão no vale dos túmulos
Que contam o esforço do homem.
Ali as fábulas do tempo são a luz sumindo
Sobre rostos que somem.”

(Tradução de Jorge Wanderley)

Aos 75 anos, Davies é sempre lembrado por “Vozes Distantes”, pelo qual ganhou o Leopardo de Ouro de Locarno, em 1988. Desde 2016, quando lançou “Além das Palavras”, com a atriz Cynthia Nixon numa sublime reconstituição dos feitos da poeta Emily Elizabeth Dickinson (1830 – 1886), o cineasta andava quietinho, reunindo películas com imagens da I Guerra Mundial. A partir delas, ele recria a luta de Sassoon para construir uma obra em versos que refutem o espírito belicoso dos britânicos. O pacifismo é o foco de sua lírica, em uma vida pontuada de combates morais, por conta de sua orientação homossexual. Jack Lowden dá vida às inquietações de Sassoon, enfatizando sua crença no amor e sua peleja para manter seus namorados, mesmo em momentos de crise. Davies explora ainda o interesse dele pelo Catolicismo, no fim de sua vida.
“Não sou um sujeito tecnológico, demorei a ter celular e acredito que cinema deva ser visto numa sala escura, com o mistério de uma projeção ao nosso redor”, disse o cineasta, ao P de Pop, ao falar de seu belo “Benediction” a San Sebastián, destacando a suntuosidade de sua narrativa, fotografada por Nicola Daley, uma artesã da luz. “Quando vi as imagens da I Guerra nos filmes de arquivo que eu consegui, com cenas das trincheiras, acreditei que as cenas ficcionais de interiores deveriam seguir um padrão contrastante, apostando na suntuosidade. Quando conheci o trabalho de Nicole, acreditei que essa menina teria talento para ir longe. E ela foi. Falamos de paixão, sem nos rendermos à amargura, em um país que tratou o amor gay como um crime, por décadas”.

Jack Lowden como Sassoon

Lotou a sessão que a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, a Fipresci, promoveu neste sábado em homenagem à diretora Chloé Zhao e à produtora e atriz Frances McDormand em tributo ao longa “Nomadland”, que a associação de críticos votou como sendo o melhor filme de 2021. A produção recebeu o Oscar de melhor filme, em abril, narrando o périplo de uma professora aposentada que, assombrada pelo desemprego, viaja América adentro em seu trailer.

Na semana que vem, San Sebastán terá um horário vazio em sua grade, a ser ocupado por um filme surpresa. Estima-se que será “Sempre Em Frente” (“C’mon C’Mon”), do diretor Mike Mills (de “Toda Forma de Amor” e “Mulheres do Século 20”), apoiado no talento de Joaquin Phoenix, em seu primeiro trabalho após o fenômeno “Coringa” (2019). No filme de Mills, Phoenix interpreta um jornalista que precisa cuidar do seu jovem sobrinho enquanto embarca em uma viagem pelos Estados Unidos, com o objetivo de entrevistar crianças sobre o que elas pensam acerca do futuro.
San Sebastián chega ao fim no dia 25, com a entrega de prêmios. Até o momento, pelo que já se mostrou à imprensa especializada, o grande concorrente, até agora, é “Arthur Rambo”, do francês Laurent Cantet, que promove um estudo sobre a cultura do cancelamento, retratada no ambiente do mercado editorial.

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