Teremos ‘Desejo de Matar’ na Berlinale?

Teremos ‘Desejo de Matar’ na Berlinale?

Rodrigo Fonseca

24 Dezembro 2017 | 18h46

Sob a direção do tarantinesco Eli Roth, Bruce Willis assume as armas de Paul Kersey na retomada da franquia “Death Wish”, em cartaz em março

Rodrigo Fonseca
Já tem cartazes de Desejo de Matar – a versão anos 2010, com Bruce Willis – nas salas dos principais cinemas do país, e um trailer dublado, com a voz de Leonardo Camilo na boca do eterno duro de matar começa a bombar na web, demonstrando que é grande o interesse pelo novo longa-metragem do diretor Eli Roth (o Urso Judeu de Bastardos Inglórios). A data de estreia pulou de novembro deste ano para março do ano que vem em função do estrago simbólico causado por um massacre em Los Angeles, no início de outubro, quando um atirador matou vários americanos. Há quem aposta na inclusão dele no menu do Festival de Berlim 68 (15 a 25 de fevereiro), por conta da polêmica inerente ao projeto, um tratado do rancor inerente à Era Trump. Com sangue fresco espirrando por todo lado, esta produção assume como herói o arquiteto transformado em vigilante Paul Kersey. Por conta de sua tonalidade fascista, na defesa de que “bandido bom é bandido morto”, o longa original, Death Wish, de 1974, nunca é enquadrado entre os grandes exercícios de representação das transformações sociais feitos pelo cinema americano dos anos 1970 – época na qual esta produção de US$ 3 milhões rendeu US$ 22 milhões na venda de ingressos. Embora haja um hype vintage em torno de seu astro, Charles Bronson (1921-2003), este nunca alcançou o mesmo prestígio do que outros tough guys da época, como Clint Eastwood, por exemplo. E o diretor desta pérola realista sobre justiçamentos, o inglês Michael Winner (1935-2013), tampouco é lembrado como deveria, visto o quão virtuoso era na elaboração de planos. Naquele momento do que se chamava Geração Easy Rider (referência à leva de jovens responsáveis por uma renovação de linguagem e de narrativa das telas dos EUA a partir do engajamento político e do desafio aos tabus morais), com Coppola, Scorsese, De Palma e mais uma leva de transgressores apostando à esquerda dos signos de americanidade, Winner era uma espécie de signo de contrarreforma, de aposta no conservadorismo.

Esse debate sobre a reação conservadora de Hollywood retorna agora, nestes tempos de culto a heroínas, na caça às bruxas do machismo nas tramas sobre homens, e na fratura dos símbolos clássicos do masculino. Não por acaso foi escolhido Willis, ator que ofereceu US$ 1 milhão como recompensa a quem lhe trouxesse a cabeça de Osama Bin Laden nos tempos do 11 de Setembro. Como sua carreira anda em baixa há anos, é difícil saber se o regresso de Kersey terá o mesmo impacto que o personagem teve nos anos 1970 e 80. Mas que as primeiras imagens divulgadas por Roth são provocativas, não há como negar. O vigilantismo de Kersey se enquadra bem na filosofia de Donald Trump. Mas será que essa necessidade de ração pode transcender os ditames da direita radical?