Tendler e alma brasileira

Tendler e alma brasileira

Rodrigo Fonseca

29 de julho de 2019 | 11h20

RODRIGO FONSECA

Está marcada para 8 de agosto a volta às telas de Silvio Tendler, o papa do documentário histórico no Brasil, na ativa agora com “A alma imoral”, cuja gênese vem do livro homônimo de Nilton Bonder. Há um ano, o diretor levou ao circuito uma aula de vigília ética chamada “Dedo na ferida”. Era um caleidoscópio de calombos finaceiros acerca da economia da exclusão.

Simpósio sobre especulações bancárias em forma de longa-metragem, harmonizando investigação e reflexão numa montagem tensa, “Dedo na ferida” parece uma dissertação de mestrado: usa citações (como vinhetas), aposta na dialética em depoimentos contrastantes, e expõe fatos em vez de esboçar juízos. Sua dramaturgia, com estrutura de almanaque, espelha a evolução formal de um cineasta que, desde os anos 1980 une o rigor e a iluminação do saber universitário à esfera de inquérito que o documentário tem. É o trabalho mais vívido de Silvio Tendler (“Anos JK”), mestre na fusão de História e Cinema, que vem, desde “Utopia e barbárie” (2010), numa trajetória de renovação estilística, saindo dos docs. biográficos que o consagraram (como “Jango”) para narrativas geográficas, nas quais o espaço conta mais do que a cronologia.  Neste novo (e febril) trabalho, o documentarista carioca costura frases ferinas sobre o papel cancerígeno do capitalismo em nossa sociedade, numa autópsia em corpo vivo de nossa democracia.

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