Tendências de dramaturgia no cinema do amanhã

Tendências de dramaturgia no cinema do amanhã

Rodrigo Fonseca

25 de junho de 2020 | 14h54

Rodrigo Fonseca
Quando começou o papo de pandemia, ainda no fim do Festival de Berlim, em fevereiro, foram levantadas algumas tendências do cinema internacional – capazes de se estender para o universo das séries – que traduzam as inquietações sociais e morais do nosso tempo. A afirmação do feminino é a apoteose dessa transformação temática, seguida pela discussão do racismo e pela expressão política das vozes das populações negras. O apagamento da memória é outro ponto nevrálgico: nos anos 2000, filmes icônicos como “Amor à Flor da Pele” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” falavam dos resquícios, da proteção das recordações. Hoje, o assunto é outro. É a atomização das memórias que geram trauma, com foco no esquecimento. É esse o caso de “Fuga”: Que trabalho de estreia memorável teve Agnieszka Smoczyńska na direção desta surpresa da Semana da Crítica. Este agridoce drama da Polônia narra a volta por cima de uma mulher que, após um surto amnésico, tira filhos, marido e pais da memória, e não se interessa em reatar os laços com eles. Sua montagem abre deixa para a reflexão sobre as falências domésticas de nosso tempo.

“Próxima”, com Eva Green

A lista a seguir dá conta de longas já finalizados que têm sido encarados como promessas de novas linhas narrativas, muitos deles calçados no realismo. O quinhão da fantasia tem como principal apoio o novo longa do inglês Christopher Nolan, “Tenet”, protagonizado pelo filho de Denzel Washington, John David (de “Infiltrado na Klan”), e centrado nos feitos de uma organização que é capaz de inverter o fluxo do tempo, usando este poder para salvar pessoas.

Confiram as demais apostas em inovação na dramaturgia:
Benedetta, de Paul Verhoeven: A partir de um caso real, escondido em documentos da Igreja Católica, o diretor de “Elle” revive a saga de uma freira que desenvolve poderes de cura, nas raias do milagre, que ficam mais fortes quando ela se aproxima de outras mulheres. Mas essa aproximação vai além da sororidade quando a sacerdotisa percebe seu desejo sexual incontrolável por uma monja. É um debate sobre fé e afirmação das orientações sexuais, nas raias da fantasia.

Proxima, de Alice Winocour: Laureado com o Prêmio Especial do Júri do Festival de San Sebastián, na Espanha, o novo filme da diretora de “Augustine” (2012) repagina a imagem de Eva Green (“Os Sonhadores”), apostando em seu amadurecimento. A atriz vive um astronauta que, escalada para uma missão no espaço, precisa driblar questões da maternidade, sem deixar sua filha desamparada. Matt Dillon é um dos destaques do elenco desta requintada aventura existencial, com um pé nas estrelas e outro no chão por onde uma jovem mãe precisa avaliar seus sonhos profissionais.

Convoi Exceptionel, de Bertrand Blier: Mestre do riso e das crônicas comportamentais, sumido desde 2010, o realizador de “Meu marido de batom” (1986), hoje com 80 anos, resolveu espanar a poeira sobre seus ombros para escrever e dirigir uma comédia nas raias da metalinguagem, com ecos de “Esperando Godot”. Na trama, dois homens de classes sociais distintas, Foster (Christian Clavier) e Raoul Taupin (Gérard Depardieu) trombam na rua e descobrem que são personagens de um roteiro do qual nada sabem. Todos à sua volta parecem conhecer o futuro da dupla que, incomodada, parte atrás de respostas, vivendo situações inusitadas.

“Convoi Exceptionel”, de Bertrand Blier

Les plus belles années d’une vie, de Claude Lelouch: Retomada de “Um homem, uma mulher”, ganhador da Palma de Ouro de 1966, laureado ainda com os Oscars de filme estrangeiro e de roteiro. Nele, estão de volta dois icônicos personagens da década de 1960: a roteirista Anne Gauthier (Anouk Aimée) e o piloto de corridas Jean-Louis Duroc (Jean-Louis Trintignant). A mítica trilha sonora de Pierre Barouh e Francis Lai também foi ressuscitada. Na trama atual, Duroc está em uma casa de repouso para adultos, com a memória debilitada, a imaginação em fuzarca e um olhar que parece caçar a câmera, para nos fitar e desnudar seu abandono. Seu filho resolve ir atrás de Anne, a fim de leva-la para um encontro outonal com seu velho pai.

Alfazema, de Sabrina Fidalgo: Todo ano, um curta-metragem fura a bolha dos holofotes restritos a longas e filmes feitos para streaming e se impõe por sua estrutura estética ou seu combativismo político. O novo curta da realizadora de “Rainha” deu um banho de confete, de axé, de afirmação racial negra e de empoderamento feminino por onde passou e ainda papou o Candango de melhor direção em Brasília. Shirley Cruz tem uma atuação zépelintrica no papel de uma foliã visitada por entidades de diversas potências e índoles em meio ao Carnaval.

“Alfazema”: pedacinho colorido de exuberância

Le prince oublié, de Michel Hazanavicius: A cota do escapismo. O ganhador do Oscar de melhor direção por “O Artista” (2011) assina o que pode ser “o” fenômeno de bilheteria francês de 2020, de carona o carisma de Osmar Sy (do já citado “Intocáveis”). Ele vive Djibi, contador de histórias capaz de inventar as fábulas mais surpreendentes para entreter sua filha de 7 anos. Nelas, ele sempre é um herói imbatível, um príncipe cheio de glórias. Mas a menina chega à adolescência e, cansada do arquétipo do pai perfeito, resolve criar suas próprias fantasias, nas quais Djibi já não é tão infalível assim. O problema é que a imaginação crítica da jovem começa a refletir na vida dele, com consequências nada agradáveis.

Sibyl, de Justine Triet: Estrela do momento no cinema francês, Virginie Efira (de “Um amor à altura”) gravita com elegância do trágico ao hilário no papel de uma terapeuta às voltas com uma paciente com os nervos em frangalhos: uma atriz (Adèle Exarchopoulos, de “Azul é a cor mais quente”) cujo namorado traiu sua confiança. Sibyl (Efira) precisa atender a moça no meio de um set de filmagem onde tudo ameaça dar errado. Inclusive a psicóloga. Indicada à Palma de Ouro, a produção é um trabalho de maturidade da badalada realizadora de “Na cama com Victoria” (2016).

Druk, de Thomas Vinterberg: Um dos assuntos do momento é o hedonismo. O tema ganha o sorriso e o fígado de Mads Mikkelsen na trama sobre um professor que apela para a Caninha da Roça e para a Atalaia Jurubeba em seu teor etílico mais denso para encarar seu alunado.

Digger, de Georgis Grigorakis: Gestada silenciosamente na Grécia, este drama de seiva política tornou-se uma das produções mais elogiadas da seção Panorama. Num pesaroso tom trágico, vitaminado pela montagem reflexiva de Thodoris Karvelas, este drama sobre a solidez que se desmancha no ar – pela ausência de dialéticas sociais – parte de um deslizamento de terra na região onde fica uma pequena propriedade rural… uma cabaninha. Seu dono, Nikita (Vangelis Mourikis) vive agrilhoado à modorra do Tempo, nesse local de lama, até que seu filgo regressa, depois de 20 anos de ausência, para cobrar a herança materna. Mas a situação já tensa entre os dois há de se agravar com a presença de uma construtora que quer se apossar do local. Nesse enredo, Sófocles dá as mãos a Karl Marx em um estudo sobre a erosão dos afetos.

Piedade, de Claudio Assis: Representante de uma petrolífera, o executivo Aurélio (Matheus Nachtergaele) tenta convencer os moradores de uma cidadezinha litorânea a abrir mão de suas posses. Para isso, ele vai manipular o dono de um cinema pornô, Sandro (Cauã Reymond, em devastadora atuação).

7500, de Patrick Vollrath: Indicado ao Oscar de melhor curta-metragem em 2016 com “Tudo Ficará Bem”, sobre um pai divorciado às voltas com uma filha de oito anos numa situação de perigo, Vollrath evoca em “7500” as estéticas de Alfred Hitchcock, Brian De Palma e John McTiernan e outras expressões cinematográficas ligadas à claustrofobia. Nascido em Eisdorf, na Alemanha, há 35 anos, Vollrath formou-se como realizador na Áustria, tendo Michael Haneke (ganhador da Palma de Ouro de 2009, por “A Fita Branca”, e a de 2012, por “Amor”) como tutor e amigo. Há, em “7500”, uma relação imediata com o cinema de Haneke no senso de desastre anunciado que rege o filme, assim como há na maneira crítica com Patrick estuda a xenofobia e outras formas de intolerância. Na aviação, 7500 é o código de emergência para um sequestro de avião. No caso da longa, terroristas usam cacos de vidro de garrafas compradas em um Dutty Free para tomar a aeronave. Filmado em um cockpit em um estúdio de Colônia, a narrativa de Vollrath se concentra no perímetro da cabine de pilotagem assim que o voo decola e ali fica, mesmo quando um grupo armado de vidros quebrados ameaça a vida dos tripulantes, colocando a jugular deles na mira do ódio. O ex-piloto da Lufthansa Carlo Kitzlinger vive um dos pilotos, Michael, ao lado de Gordon-Levitt. Já Omid Memar e Murathan Muslu interpretam dois dos terroristas.

Mirai, de Mamoru Hosoda: Vem do Japão esta joia da animação. Muito tímido, de poucas palavras, mas sempre sorridente, o animador Mamoru Hosoda cumprimentava os espectadores que enfrentaram quase uma hora de fila para conferir a estreia de seu novo filme, Mirai, no Festival de Cannes, fazendo uma pergunta: “Você tinha quantos anos quando começou a ver Digimon?”. Pras poucas cabeças grisalhas enfileiradas ele deu só um “Hi!”, mas com os mais jovens, sobretudo os visivelmente nerds, ele puxava assunto, a fim de entender a ligação do público com sua trajetória na animação, iniciada em 1993. Até hoje, seu trabalho de mais prestígio era O Rapaz e o Monstro (2015). Mas a aventura temporal sobre o menino Kun e sua irmã, Mirai, deve mudar isso, dava a tonelada de aplausos, umedecida por litros de lágrimas, ao fim de sua projeção na Quinzena dos Realizadores. Elogiado por sua originalidade, uma vez que tem uma das tramas mais inusitadas de Cannes este ano, o desenho animado de 1h38 é uma aula de psicanálise para todas as idades. Kun é um guri de 4 anos, louco por trenzinhos, que acaba de ganhar uma irmã. Antes, os pais viviam para ele. Agora, não mais: Mirai requer atenção. Com ódio, ele pragueja contra ela e a família e se esconde no jardim, onde esbarra com uma estranha criatura, que diz ser um príncipe, mas, na verdade, é o cãozinho dele materializado como gente. Desse mágico encontro em diante, Kun vai saltar no tempo, entre seus afazeres na creche e o jantar, encontrando uma versão criança de sua mãe e a versão adolescente de Mirai. E tudo isso se dá na tela a partir de uma direção de arte exuberante.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: