Tempo Glauber põe ‘O Prefeito’ em debate

Tempo Glauber põe ‘O Prefeito’ em debate

Rodrigo Fonseca

27 Abril 2017 | 07h22

Dos escombros da Perimetral, Nizo Neto, que hoje completa 53 anos, arranca sua melhor atuação em “O Prefeito”: riso e crítica em debate no Tempo Glauber

RODRIGO FONSECA
Às vésperas de ser visto numa breve, mas divertidíssima participação na comédia Ninguém Entra, Ninguém Sai, que estreia dia 4 de maio, Nizo Neto vai comemorar seu aniversário de 53 anos no fervor de um debate sobre a mais aclamada interpretação de sua carreira: O Prefeito. Pouco valorizado em circuito exibidor no Brasil, apesar de sua aclamada trajetória em festivais estrangeiros, o longa-metragem mais transgressor do diretor Bruno Safadi – em visual e em narrativa – será exibido e debatido esta noite, às 19h, em terras cariocas, no Cineclube Ação e Reflexão, no Tempo Glauber, em projeção a ser mediada por Pamella Ohnitram e Francisco Carbone (dono de um dos textos mais saborosos hoje feitos pela crítica nacional). Antes será exibido o premiado curta-metragem Regeneração, dirigido pelo ator e cineasta Humberto Carrão. Onde fica? Rua Sorocaba 190, Botafogo, Rio de Janeiro, espaço hoje cuidado por Cavi Borges, que cuida do Cineclube em parceria com o crítico e jurista Filippo Pitanga.

Quem passar por lá, pode conferir – a custo zero – o exuberante desempenho de Nizo Neto em seu mais inusitado papel. Não é todo dia que uma comédia brasileira aposta no grau de experimentação formal como faz este derivado do projeto de filmes de baixo orçamento Tela Brilhadora, considerado um dos mais ousados exercícios autorais de Safadi. A obra deste cineasta carioca – consagrado desde que foi laureado com o troféu Barroco de melhor filme na Mostra de Tiradentes de 2008 com Meu Nome É Dindi – tem como traço identitário retratar e repensar ambientes urbanos do Rio de Janeiro pouco explorados pela ficção a partir de uma geopolítica do isolamento. E esta geopolítica ganha contornos metafísicos quase fantasmagóricos numa narrativa que utiliza foto como linguagem – quase numa lógica de fotonovela, num dispositivo similar ao usado por Chris Marker em La Jetée (1962), só que aplicado às ruínas da Perimetral. E estas ganham contornos de assombro na fotografia em preto e branco de Lucas Barbi, cujo requinte evoca pérolas cômicas de mestres como Ernst Lubitsch, sobretudo o seminal A Loja da Esquina (1940).

Ruínas de um RJ em movimento

Inaugurada em 1960, para funcionar como uma das principais vias rodovárias de acesso do Rio, a Perimetral teve seu prazo de validade vencido no fim de 2013, mas, de seus escombros, brotou uma bem-humorada crítica política filmada ao longo de sete dias, em outubro de 2014. Dublador, mágico e humorista, Nizo – celebrizado como o aluno CDF Seu Pitolomeu da Escolinha do Professor Raimundo, na qual trabalhava com seu pai, Chico Anysio – assume o papel-título do longa. Ele é um alcaide que sonha decretar a independência do Rio em relação ao restante do Brasil, tornando-se seu sumo-governante. Só que este líder opta por governar a Cidade Maravilhosa do que sobrou dessa via de acesso demolida. E, em meio a seus delírio de grandeza e ao TOC que tem com limpeza, ele recebe uma visita de um ente espectral (Djin Sganzerla, atriz sempre no timbre fino da ironia) que entorpece seus sentidos a pedras de crack.

“Este filme nasce do meu desejo de trazer o humor ácido de volta às nossas telas, como forma de pegar uma tendência cinematográfica que anda em voga no país – a comédia – só que associada a um estilo televisivo, esteticamente pobre, como forma de reinventá-lo”, disse Safadi, à época das filmagens.

Na trama do longa, o personagem de Nizo, conhecido apenas como O Prefeito, é um governante viciado em remédios que sonha ser um novo Pereira Passos (1836-1913), o político responsável pela revitalização urbanística do Rio entre 1902 e 1906. Mas a forma que o protagonista do filme de Safadi encontra é emancipar o Rio como nação soberana, mantendo os impostos locais – altíssimos – dentro do perímetro da cidade. A ideia, a princípio megalômana, concretiza-se graças ao apoio de aliados de governo que sonham dividir a receita dessa taxação carioca entre si, além de ganharem, cada um, uma rua ou um bairro do Rio para desfrutarem como quiserem. Aos poucos, contudo, o que seria um golpe escuso torna-se um governo revolucionário, tendo como sede os dejetos de concreto, aço e poeira da Perimetral. A montagem de Ricardo Pretti valoriza cada virada do roteiro sem jamais amordaçar a liberdade reflexiva que vai além das leis de causa e efeito da narrativa.