Tem Hsu na Amazon Prime

Tem Hsu na Amazon Prime

Rodrigo Fonseca

11 de outubro de 2021 | 11h54

Rodrigo Fonseca
Envolvido com as filmagens da comédia “Desapega!”, com Glória Pires, em rodagem no Rio, Hsu Chien Hsin, diretor sino-brasileiro nascido em Taiwan, de família chinesa, deu de presente à streaminguesfera um dos longas nacionais mais inteligentes do ano: “Quem Vai Ficar Com Mário?”. Tá na grade da Amazon, após ter feito uma senhora carreira em circuito.

Considerado um dos cinéfilos mais fominhas do Rio de Janeiro, famoso por ver quatro longas-metragens por dia, mesmo quando está ocupado em sets de filmagem, Hsu foi assistente de direção de 78 filmes, além de ter trabalhado em séries, minisséries e comerciais desde que estreou no mercado audiovisual no thriller “O Que É Isso, Companheiro?”, indicado ao Oscar em 1998. Tem ainda uma trajetória como diretor assistente, trabalhando com mais espaço criativo, na luta para aportar seus conhecimentos sobre as engrenagens da dramaturgia ao trabalho de realizadores egressos de outras mídias, como fez com Miguel Falabella no recém-lançado (e belíssimo) “Veneza”. Mas desde 2013, quando lançou o curta-metragem “Pietro”, Hsu vem construindo (com sucesso) um trajeto muito particular como cineasta, que alcança agora o aplauso das plataformas digitais com a boa acolhida à comédia “Quem Vai Ficar Com Mário?”. É um ímã de risos.
Sua trama acompanha as confusões emocionais e comportamentais de Mário Brüderlich, dramaturgo e escritor encarnado por Daniel Rocha (o Popó do seriado “Irmãos Freitas”) com uma maturidade surpreendente. Egresso de um clã embebido no chimarrão do sexismo, em um canteiro do Rio Grande do Sul ainda atado a tradições machistas, Mário é homossexual e tem um relacionamento estável (e feliz) com o diretor teatral Fernando (Felipe Abib). Apesar dessa harmonia romântica, ele não é capaz de assumir para a família que é gay. Numa viagem para matar as saudades do berço, ele decide sair do armário. Mas, lá, tropeça num obstáculo que se mostra um quebra-molas em sua estrada de realização afetiva: seu irmão, Vicente (Rômulo Arantes Neto, numa sofisticada interpretação), assume-se antes dele, surpreendendo a todos. Esse plot pode soar familiar pois já foi contado na dramédia italiana “O Primeiro que Disse” (“Mine vaganti”, 2010), levada pelo cineasta Ferzan Ozpetek à mostra Panorama da Berlinale. Mas uma negociação de direitos deu à produtora Virginia Limberger o direito de transpor essa trama pra cá, com brasilidade aos litros.

Nessa transposição, o diálogo de Hsu com o filme original da Itália produziu um tom singular de chanchada, fazendo da gargalhada uma arma para debelar a homofobia e celebrar formas de amar livres, que se manifestam quando Mário, obrigado a se manter na jaula do silêncio, é atropelado pela figura de Ana, papel dado à mais talentosa atriz de sua geração hoje no cinema: Letícia Lima. É uma das vívidas composições de personagem do nosso cinema nos últimos anos. Signo vivo de empoderamento, Ana dá tônus de combate a uma narrativa sobre escolhas, que se impõe como um espetáculo visual à força do dionisíaco uso de cores da fotógrafa Kika Cunha.
No roteiro, assinado por Stella Miranda, Luis Salém e Rafael Campos Rocha (sendo que o IMDB inclui Laura Malin), Ana vem oxigenar a cervejaria dos Brüderlich no momento em que Mário se vê forçado a chefiar os negócios de seu pai, papel dado ao ator Zé Victor Castiel, antes que seu cunhado brucutu (Marcos Breda, em hilária participação) assuma o timão dessa navilouca. Ela fala a língua do marketing e conhece na pele o açoite do desrespeito, ao qual reage já em sua cena de apresentação, quando rabisca um cartaz onde se lê “Lugar de mulher é na cozinha”. Seu grafite é “Lugar de mulher é onde ela quiser”. Ali já se percebe sua força e seu ímpeto em tirar o feminino, daquele ambiente, da inércia plena.
Letícia já brilhara no longa anterior de Hsu, “Ninguém Entra, Ninguém Sai” (2017), também sobre uma penca de gente engastalhada num ambiente de repressão. Vale especial destaque em “Quem Vai Ficar Com Mário?” a exuberante figura de Lana, performer trans vivida por Nany People com plumas, paetês, purpurina e dignidade.

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