Tem FLUP na área: 10 anos de poéticas periféricas

Tem FLUP na área: 10 anos de poéticas periféricas

Rodrigo Fonseca

01 de setembro de 2021 | 10h39

RODRIGO FONSECA
Criada por Ecio Salles (1969-2019) e Julio Ludemir com o desejo de mapear novas expressões poéticas fora dos centros privilegiados, sobretudo nas favelas do Rio de Janeiro (seu berço e seu lar), a Festa Literária das Periferias (FLUP) chega aos 10 anos de excelência em 2021 e tem uma programação de peso para celebrar sua primeira década de exercício democrático. Sua programação vai de 5 a 8 de novembro, online e presencialmente, e pode ser seguida na íntegra via www.Flup.net.br, na web. Autor do seminal “No Coração do Comando” (2002), Ludemir conta ao Estadão que vai pautar suas mesas de debate num diálogo transatlântico. A partir da presença do Emicida em Portugal, no Centro de Estudos Sociais, o curador e escrutor pernambucano vai reunir produtores e pensadores da palavra falada, reunindo rappers, poetas, slamers de uma África lusófona, do Brasil e de Portugal. “Todo esse povo, que antes era invadido por Portugal, agora está invadindo Portugal em consequência da crise migratória”, diz Ludemir, prometendo um encontro da poeta e romancista da Costa do Marfim Tanella Boni com a filósofa Djamila Ribeiro, para discutir as heranças culturais que passaram de geração em geração por intermédio das conversas das mulheres. Vai haver ainda uma mesa de glosa, uma produção de rimas seguindo as lógicas cartesianas da poesia nordestina. Vai ter ainda um encontro de dois poetas surdos, uma da Costa do Marfim (Djenebou Bathily) e outro da periferia de São Paulo (Leo Castilho). Esta mesa será conduzida em língua de sinais, uma em francês e a outra em libras. Todo esse conteúdo online poderá ser visto binge watch, ou seja, poderá ser maratonado. Vai ter ainda evento presencial: o Slam Abya Yala, que durará três dias. A base será a Babilônia. Lá serão reunidos poetas de 16 países das três Américas. Vai ter slammers dos EUA, Canadá, Guatemala, Haiti, Cuba, Uruguai, Argentina, Colômbia, Venezuela, Peru e outros. No papo a seguir, Ludemir fala ao P de Pop do quanto a pandemia, um dos adversários mais hercúleos de um evento de visibilidade mundial como a FLUP, já reflete na prosa e no verso.

Julio Ludemir em foto de Maurício Hora na FLUP

Nesses tempos de pandemia, após todo o isolamento imposto pela covid, o que mudou na literatura?
Julio Ludemir:
Essa literatura da covid-19 vai demorar um pouco para ser compreendida e resultar em novas narrativas. Há uma herança que a covid deixa para quem produz cultura, que é o hibridismo, na junção de plataformas presenciais e virtuais. Ainda assim, isso pesou mais na narrativa de quem faz cinema e teatro. No começo, essas encenações eram uma reprodução daquilo que se fazia no palco. Neste momento, existe uma narrativa audiovisual que não é cinema – por estar longe de trabalhar com todos os recursos financeiros e técnicos da indústria cinematográfica – porém ela não é mais o teatro tal como nós o conhecemos. Sei particularmente de duas experiências muito explicitas nesse sentido. Uma é o “Desfazenda” e outra é do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que também passa pela Roberta Estrela Dalva. Em algum momento, o Slam, a poesia e o sarau foram viralizados por intermédio do YouTube. Um exemplo é o Slam da Resistência. Ele pegava os melhores poemas e as performances mais arrebatadoras e colocava no YouTube, criando uma relação dialética entre a ágora do Slam, o momento aqui e agora, e as redes sociais. Eu te diria que algo que fortaleceu muito essa cena da poesia falada foi a cultura das lives, que terminou sendo enfraquecida pela pandemia, na medida em que existe um cansaço extraordinário delas, pelo excesso. O Brasil, no momento, vive uma esquizofrenia extraordinária porque apenas os grandes eventos voltaram. O cinema está super esvaziado, mas os bares estão cheios. As pessoas estão morrendo de saudade umas das outras. No entanto, não estão indo para esses eventos culturais. Quem promove esses eventos, não vende conteúdo, vende encontro. Quem faz um festival de rock, vende a mesma coisa de quem faz um encontro de corais gospel, que é a possibilidade dos encontros e dos compartilhamentos. Esses compartilhamentos, até onde tenho visto, não estão acontecendo na indústria cultural como deveriam. Nesse fim de semana, coloquei o pé na rua e vi multidões nos bares, mas não vi multidões no cinema, nem nos festivais literários. Aquilo que foi extraordinário no auge da pandemia – a possibilidade de compartilhamentos online – ainda está aí, fomentando um consumo de informação como nunca aconteceu na história humana. Eu consumi coisas que jamais consumiria. No entanto, isso produziu uma real fadiga dos produtos culturais como um todo, inclusive, aqueles que a gente consome presencialmente. A literatura ainda não traduziu isso, mas vai. Ela há de refletir essa coisa de as pessoas estarem com medo de ir ao cinema e ao teatro.
Em que pé está a sua literatura?
Julio Ludemir:
Eu poderia te dizer que morro de saudade de escrever. Tô me reestruturando de modo a escrever. Quando fiz o “No Coração do Comando”, eu escrevi aquela história para fazer uma reflexão não sobre o crime e, sim, sobre a paixão. Era um homem que abria a mão de tudo o que o crime lhe dava, abandonava toda uma ideia de pertencimento, toda uma possibilidade de remuneração, para viver uma grande paixão. O mesmo ia acontecendo com aquela mulher do Terceiro Comando, que abriu mão de tudo, inclusive da vida, para viver esta grande paixão. Fui fazer uma reflexão sobre o amor, a paixão, a inevitabilidade dos desejos, usando a plataforma na qual tudo isso é menos esperado: a plataforma do crime, em princípio, ligada ao ódio e à vingança. Em algum momento, achei que era um Luiz Eduardo Soares da vida, que não sou. Não sou um antropólogo ou sociólogo. Sou um escritor. Faço literatura. Mas estudei muito isso que é o contraditório mundo da palavra. Todo o código do crime é baseado numa palavra oral. Todo mundo sabe o que pode e o que não pode fazer. Temos ali um mundo do fio do bigode, daquilo que eu empenho e não preciso de fiador.
O que a literatura ligada ao universo do crime trouxe de mais singular para a prosa brasileira?
Julio Ludemir:
O crime tem se tornado cada vez mais o universo das traições. Não à toa a gente vê tantas guerras. Seja o crime miliciano, o crime tráfico de drogas ou o crime do assalto à mão armada. Ele é um crime onde a palavra empenhada mais teve valor. A gente não vive dos contratos formais, é o aperto de mão. A palavra vale um tiro. Isso terminou me levando para o conhecimento da favela como uma sociedade que se organiza de novo, no âmbito da informalidade, fora do papel passado e dos grandes contratos. Onde todo mundo se entende, apesar de nós não nos entendermos. Sei que não posso fazer barulho, sei que não posso andar de sunga no meio da rua, sei todos os códigos e nenhum desses códigos está no papel, e é uma lei. Foi isso que eu encontrei quando eu comecei a escrever sobre esse universo.

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