Tem Almodóvar novo nas telas: ‘Julieta’ é avassalador

Tem Almodóvar novo nas telas: ‘Julieta’ é avassalador

Rodrigo Fonseca

05 Julho 2016 | 02h44

Que filme magistral é Julieta em seu acurado questionamento sobre o dilema de desejar e fazer disso uma afirmação catersiana do ator de ser. “Desejo logo existo”, pensam os personagens de Pedro Almodóvar. Entre o tesão e o suspiro romântico, o filme é mais novo exemplar da estética do “almodrama”. Quem cunhou o termo foi o baiano Caetano Veloso, ao se referir à estética do espanhol Pedro Almodóvar, de volta na melhor das formas em seu novíssimo filme. De cara, o longa-metragem estabelece a madrilenha Adriana Ugarte como beldade (e talento) nível Penélope Cruz. Sua estreia por aqui se dá nesta quinta-feira, 7 de julho, e é preciso que sua chegada seja valorizada, pois não se trata de “mais um Almodóvar” e, sim, de um grande filme sobre o viver, nas desinências mais cotidianas do verbo.

Almodrama Julieta Almodóvar

É um exemplar a mais do que se chama de metamelodrama. O verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feita pelo professor José Carvalho (mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio e em São Paulo na Oficina Roteiraria). Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes, Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que o realizador de Má Educação (2004) cria seu universo com base no tecido visual “vivo” estabelecido pelo melodrama clássico e suas releituras modernos, de Douglas Sirk a Rainer Werner Fassbinder. De fato, Julieta tira sua percepção da condição feminina de “lições” que o cinema do passado nos deu, potencializadas aqui por um diálogo com a literatura de Alice Munro.

julieta.jpg Julieta Cannes 13

Sem humor algum, sem bizarrices na linha do realismo fantástico ou do filão sci-fi vistas nos últimos trabalhos do diretor número 1 da Espanha, como Volver (2006) ou A Pele que Habito (2011), Julieta é apenas um painel dos acontecimentos da vida de uma professora universitária, ao longo de duas décadas e meia. Numa atuação esplendorosa, Adriana Ugarte vive a jovem Julieta e Emma Suárez (brilhante) assume a protagonista em sua idade adulta. No início, temos um clima de suspense, que logo se converte em um registro melodramático sobre a relação caudalosa de Julieta com Xoan, pescador vivido por Daniel Grao. Já no primeiro encontro de olhares, Xoan mexe com a libido da jovem.

Julieta Dario
No enredo, uma crise se instaura na relação entre Julieta e sua filha após uma tragédia (ligada, como não poderia ser diferente no cógito almodovariano, ao desejo). Mas nenhum dos contratempos ganha dimensão maior do que os dilemas internos de Julieta, expressando uma virada na obra do cineasta, agora menos interessado em viradas e mais preocupado com traumas psicológicos. Poucos roteiros vistos nas telas este ano têm urdidura tão sólida, clara e comovente.

Julieta Pedro Almodrama