‘Tela Quente’ pra João Fonseca brilhar

‘Tela Quente’ pra João Fonseca brilhar

Rodrigo Fonseca

29 de agosto de 2021 | 10h19

Rodrigo Fonseca
Vai ter cinema brasileiro nesta “Tela Quente”, marcando a estreia de um dos mais talentosos encenadores do teatro nacional na direção de longas-metragens: João Fonseca. É ele quem dirige “Não Vamos Pagar Nada”, uma aula de humor político. O filmes estreou em 2020, em meio à pandemia, e bate ponto na mais popular sessão de filmes da TV aberta, funda em 1988, com a projeção de “Caçadores da Arca Perdida”.
Trovejava mais-valia na montagem de “O Casamento do Pequeno Burguês”, escrita pelo jovem Bertolt Brecht (1898-1956), encenada por João Fonseca no Teatro Café Pequeno, em 2003, onde se ouvia: “Antigamente as pessoas sabiam fazer as coisas!”. Tal desabafo é a medida do desmanche daquilo que havia de sólido numa sociedade onde o dramaturgo alemão apontava: “Para quem tem uma boa posição social, falar de comida é coisa baixa. É compreensível: eles já comeram”. É difícil não ancorar esta frase, e o Efeito D (o distanciamento) a ela inerente, à chanchadesca imersão que o próprio Fonseca faz agora em “Non Si Paga, Non Si Paga” (1974), do lombardo Dario Fo (1926-2016), em sua (mais do que bem-vinda) estreia como cineasta, com “Não Vamos Pagar Nada”. Este longa-metragem de vívida direção de arte (Denis Netto foi acertadíssimo na seleta de cores e texturas) tem muito daquele casório brechtiano de 18 anos atrás. Em sua superfície de quiprocós, guiada por um levante em um supermercado, temos um delicado estudo sobre papéis sociais numa pirâmide onde o endinheiramento corre na margem oposta do proletário. Treme-se com o frio da Pobreza até nas representações do braço armado da Lei, simbolizado na tela em atuações de tonalidades opostas. De um lado há um PM guiado pela empatia (Flávio Bauraqui, esbanjando serenidade) e, do outro, um policial civil de fala grossa (Fernando Caruso, brincando de Stallone Cobra, em impecável atuação). Mas ambos sabem onde a fome uiva, na licantropia das demissões em massa e do atraso de salário. Brecht esboçou, e anos mais tarde, Pier Paolo Pasolini (1922-1975) escancarou: “Policiais nada mais são do que filhos de operários. Conhecem a miséria”. Num diálogo (de comover) com a tradição da comédia carnavalesca carioca – a boa e velha chanchada –, o roteiro de Renato Fagundes reproduz essa tal miséria falada por Pasolini raspando no realismo, mas sem jamais arriscar ser “Ladrões de Bicicleta” (1948). Vai mais para “Rico Ri À Toa” (1957), de Roberto Farias, ou para “O Camelô da Rua Larga” (1958), de Euripides Ramos e Hélio Barroso: dois filmes de uma “chanchadice” cronista, antenada com o bolso vazio de seu tempo. Fonseca e Fagundes se reportam a um presente pré-covid-19, mas não menos adoecido: os desacertos econômicos levaram muita gente pra rua da amargura bem antes de a tosse do coronavírus começar. Toda chanchada da boa é uma crônica – de costumes, de práticas sociológicas do momento, do jeitinho brasileiro resultante das correrias do cotidiano – e “Não Vamos Pagar Nada” segue essa linha. Afinal, seguir esse modelo parece ser uma forma de dar voz a classes que o cinema brasileiro deixou de fora em suas recentes etnografias e, como Brecht indicou: “Antigamente as pessoas sabiam fazer as coisas!”. Daí sua trama espelhar a carestia do tempo presente a falta de níqueis em nossa carteira. A Anna Magnani dessa elétrica “Cidade Aberta” é Antônia (Samantha Schmütz, uma usina de sacadas inteligentes a cada gesto). Não tem mais nada na dispensa de Antônia. Seu marido, João (Edmilson Filho), tá com o soldo pendurado. Daí, ao chegar em um mercado careiro e ver a falta de empatia do comerciante, ela se revolta. Ela e as demais freguesas e os demais fregueses. De grita em grita, vem um saque, como um instrumento de “Basta!”, o que atrai a polícia. Antônia mete o pé, mas tem que ajudar sua amiga, Margarida (Flavia Reis, “a” surpresa do filme, numa atuação impagável), a simular uma gravidez a fim de esconder na barriga o que sumiu das prateleiras. Nem o marido de Margarida, Luís (Leandro Soares, num timming preciso de espanto), pode dar conta do que aconteceu na venda. Nem João, que se vê obrigado a comer sopa de alpiste quando esta navilouca naufraga, extraindo de seu intérprete, Edmilson, uma folia de olhares que nos levam às gargalhadas. Engatilhada a dinâmica do capitalismo, na qual os mantimentos sumidos precisam ser devolvidos, Fonseca dispara uma Calibre 12 de reflexão moral, sem jamais se distanciar da medula narrativa cômica sob a qual estruturou seu filme. E a fotografia de Julio Constantini assegura a ele o colorido ideal para um Brecht suburbano… e universal.

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