‘Tela Quente’ na temperatura do Dr. Estranho

‘Tela Quente’ na temperatura do Dr. Estranho

Rodrigo Fonseca

30 de março de 2020 | 15h10

Rodrigo Fonseca
Às 23h15 desta segunda, um portal será aberto na TV aberta brasileira com acesso direto ao lado mais mágico (e adulto) da Marvel Comics, com a transmissão de “Doutor Estranho” (2016) na Globo, na “Tela Quente”. É Fábio Azevedo quem dubla Benedict Cumberbatch, aqui isento de sua habitual canastrice, sob a direção precisa Scott Derrickson. Cifras confirmam um sucesso de bilheteria que encheu os cofres da Disney de $$: o longa-metragem custou US$ 165 milhões e arrecadou US$ 678 milhões, tendo recebido uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Todo esse êxito foi a confirmação artística de uma promessa: há uns onze anos, quando surpreendeu plateias ao mesclar terror, thriller jurídico, Laura Linney e Tom Wilkinson em “O Exorcismo de Emily Rose” (2005), Derrickson se fez notar no planisfério hollywoodiano como um talento a se lapidar, conectado às esferas do Sobrenatural. Mas o fracasso de seu caríssimo “O Dia em Que a Terra Parou” (2008), com Keanu Reeves, atrapalhou a consagração dele, mas não a sua evolução estética. O que torna a expedição audiovisual da Marvel pelos domínios da magia tão vigorosa – narrativamente – é a presença de um cineasta com pleno domínio da linguagem, em busca de esmerilhar seu estilo, apoiado em um elenco de dar inveja a qualquer drama padrão Oscar de Hollywood ou de sua esfera indie.
Foi uma surpresa encontrar Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Mads Mikkelsen e Michael Stuhlbarg num mesmo filme. Assim como não é qualquer dia em que um cineasta filtra o mar de excessos de Cumberbatch e apara os faniquitos maneiristas com os quais ele destruiu Sherlock Holmes na série da TV do detetive. Se pensarmos que a escolha inicial para o Mago Supremo era Joaquin Phoenix, brota a curiosidade de saber o quão melhor este longa, já contagiante poderia ficar tendo um dos melhores atores do planeta em seu papel central. E isso foi numa época em que nem se cogitava a feitura de “Coringa” (“Joker”). Mas como Phoenix pareceu arriscado demais para a Disney, que se avalia o que temos. E o que temos surpreendeu.
Em linhas gerais, “Doutor Estranho” (“Doctor Strange”) se afina com os filmes sobre “mitos de formação”, as narrativas de origem, como vistas no antológico “Homem-Aranha” (2002), de Sam Raimi, ou em “Batman Begins” (2005), de Christopher Nolan. Somos apresentados à figura do cirurgião Stephen Strange (Benedict, engraçado e contido como nunca se viu), um médico egocêntrico e esnobe que desce aos infernos após sofrer um acidente e ver os ossos de suas mãos estilhaçados. É uma origem bem próxima à de sua criação dos quadrinhos, em 1963, por Steve Ditko e Stan Lee em julho de 1963, na edição nº 110 na revista “Strange Tales”.
Sem poder clinicar, ele busca uma cura e descobre que um sujeito antes paraplégico, Pangborn (o ótimo Benjamin Bratt), hoje recuperou os movimentos das pernas. O sujeito dá a dica: um lugar chamado Kamar-Taj, no Oriente, abriga um templo de estudo de artes místicas onde ele encontrou a cura. Strange sai pelo mundo e chega lá, onde tem sua entrada refutada pela Anciã (Tilda, sempre precisa), espécie de monge que dá ao local seu prumo. Um feiticeiro, Mordo (Ejiofor), apieda-se de Strange e convence a Anciã a acolhe-lo, apesar da arrogância que o recém-chegado esbanja. Naquele local de estudos, o ceticismo do futuro herói chegará ao seu limite máximo, até que ele aprende a fazer viagens astrais, desconectando seu corpo de sua mente, aprendendo ainda sobre os perigos que uma entidade chamada Dormammu, Senhor da Dimensão Negra, representa, assim como é perigoso o maior lacaio desse demônio, o feiticeiro renegado Kaecilius (Mikkelsen, perfeito). A chegada de Strange e sua disposição para os estudos faz dele uma arma ideal no combate a Kaecilius. Cotado junto com Phoenix para viver Strange, Mads Mikkelsen faz de Kaecilius um vilão tenebroso e obstinado. Este ano ele volta às telas com “Druk”, de Thomas Vinterberg.

Percebe-se aí, na fina vilania de Kaecilius, a primeira singularidade de “Doutor Estranho”, ainda que ela vá para os terrenos (sempre traiçoeiros) da moral: é um filme de super-herói no qual “estudar” é o verbo mais valioso. Por se tratar de uma produção Disney, ou seja, aberta a toda a família, a reverência à educação faz do filme uma peça valiosa na formação cinéfila de jovens plateias e um tônico rejuvenescedor para a inércia adulta com o aprendizado. Há, moralmente, ainda um juízo no início, com o fato de o desastre de carro de Strange ser ocasionado por ele estar no celular enquanto dirige. Moral e cívica pura.
Em termos plásticos, embora a fotografia faça um investimento excessivo em tons bruxuleados de iluminação, carregado em demasia nos timbres de marrom e sépia, há, no longa, uma direção de arte que salta aos olhos, fugindo da obviedade dos filmes de HQ e mesmo nos filmes de fantasia (vide “Harry Potter” ou o memorável “O Lar das Crianças Peculiares”). A biblioteca de Kamar-Taj, organizada por Wong (o clownesco Benedict Wong), é um espetáculo visual à parte. E é nela que ocorrem algumas das passagens de maior humor do roteiro, que abre brechas generosas para a ação, sendo que esta é executada com um nível de realismo que parece ausente da média do filão dos cruzados de capa. Artes marciais garantem adrenalina aos combate, que ganham um reforço (e um alívio cômico) na presença do manto vermelho do Dr. Estranho, que evoca a Mãozinha da Família Addams em sua prosopopeia. É um alívio cômico empregado com perspicácia
Mas há ainda mais uma camada em torno de Doutor Estranho que o torna um filme precioso. Estamos em tempos de maldade, onde os protagonistas que mais fascinam a indústria cultural tem um pé na vilania, tipo Walter White, de “Breaking Bad”. Mesmo nos filmes super-heróicos, “Deadpool” e “Esquadrão Suicida” vieram liberar todo nosso sadismo, necessário nestes dias em que filmes como “Batman vs. Superman” ou “Guerra Civil” se vendem pelo confronto entre salvadores da Terra. Houve toda a recente badalação em torno de Thanos e do já citado “Joker”, que deu o Oscar a Phoenix. Assim sendo, nada mais pertinente do que um filme que discute o Mal em planos metafísicos, com um herói torto, capaz de apelas para pactos onde outro apelariam para o muque. Mais contemporâneo do que Estranho… impossível.

p.s.: Ocupado com a finalização de seu “West Side Story”, previsto para 18 de dezembro, Steven Spielberg está celebrando os 45 anos de “Tubarão” (1975). Com base em romance de Peter Bencheley, roteirizado pelo próprio escritor, em parceria com Carl Gottlieb, “Jaws” (título original) foi um projeto de US$ 7 milhões – o que, na década de 1970, era um valor altíssimo a ser confiado nas mãos de um jovem diretor – lançado em 20 de junho de 1975 nos EUA e no Natal daquele ano aqui. Contabilizou US$ 470 milhões nas bilheterias, conquistou três Oscars – de Melhor Som, Montagem e Trilha Sonora – e consagrou o conceito de blockbuster (arrasa quarteirão) ao transformar as férias escolares do verão americano (maio, junho e julho) no período ideal para superproduções de ação e aventura. Na trama, rodada em Massachusetts, com cenas de praia na Califórnia, Roy Scheider vive o policial Martin Brody, um xerife que não gosta de mar, mas aceita se mudar para o litoral a fim de dar a seus filhos uma vida mais pacata. Mas o ataque de um tubarão branco vai ameaçar a paz do local. Um biólogo marinho (Richard Dreyfuss) tentará auxiliar o policial. Mas é um veterano lobo do mar, o pescador Quint (Robert Shaw), quem vai se oferecer para fisgar a criatura – batizada de Bruce nos bastidores, em referência maldosa ao advogado de Spielberg – numa narrativa regada a litros de adrenalina e aos acordes do compositor John Williams. A maioria dos takes foram feitos com a câmera na mão da equipe de fotografia. No Brasil, Scheider foi dublado por Carlos Campanile; Shaw, por Antônio Moreno; e Dreyfuss, por Ézio Ramos.

#DoctorStrange #Marvel #DoutorEstranho #Jaws #WestSideStory #ScottDerrickson

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: