‘Tela Quente’ grita ‘Shazam!’

‘Tela Quente’ grita ‘Shazam!’

Rodrigo Fonseca

21 de junho de 2021 | 10h08

A Família Marvel em ação

Rodrigo Fonseca
Capitão Marvel promete nos salvar de todo mal (dentro do possível, para os parâmetros atuais do país) na “Tela Quente” desta segunda-feira, 21 de junho, às 22h30. Na década de 1980, “Curtindo a Vida Adoidado” (1986) e “Clube dos Cinco” (1985), de John Hughes (1950-2009) eram o modelo pro chamado “filme de adolescente”, retratando a juventude sob uma ótica horizontal, sem hierarquia, mais ou menos como o recente “Shazam!”, da Warner Bros., conseguiu, em 2019. Prometido para a HBO Max, esta produção de US$ 100 milhões, cuja receita beirou US$ 365 milhões, ganhou novos holofotes com o investimento do estúdio em “Adão Negro”, uma das grandes apostas das HQs da DC nas telas, para 2022. O vilão era um algoz do Capitão Marvel, mas acabou ganhando contornos heroicos nos gibis. Sua versão pras telas terá Dwayne “The Rock” Johnson no papel central, além de contar com Pierce Brosnan como Sr. Destino. Sua confecção audiovisual fez que o microcosmos pop de Shazam tivesse uma sobrevida. E já tem uma parte dois para o longa que o Plim! Plim! exibe mais tarde, prevista para 2023: “Shazam! Fury of the Gods”, com Lucy Liu no papel de Kalypso.

Criado à imagem e semelhança do ator Fred MacMurray (de “Pacto de sangue”) em 1939, num esforço editorial da Fawcett Comics em buscar um rival comercial para o sucesso de vendas do Super-Homem, o Capitão Marvel, ou Shazam, cria dos quadrinistas CC Parker e Bill Peck, volta aos cinemas em um filme capaz de surpreender a plateia em múltiplos aspectos, começando pela precisão de seu roteiro. Prolífico curta-metragista respeitado nos longas-metragens por um par de filmes de terror (“Quando as luzes se apagam” e “Annabelle 2: A Criação do Mal”), o diretor David F. Sandberg encontra no vetusto super-herói da década de 1940 um caminho de equilíbrio entre aventura, humor e drama familiar que a DC Comics vinha buscando desde o fim da franquia “Batman”, de Christopher Nolan, em 2012. Nolan criou uma trilogia imbatível, em termos éticos e estéticos, mas, depois dela, o selo editorial por trás do Homem-Morcego quis um caminho mais popular, menos sombrio (leia-se adulto), e buscou proximidade com a linha narrativa do Marvel Studios – maior máquina de dinheiro do cinema contemporâneo. No esforço de bater de frente com a rival, a DC, ligada à Warner Bros., saiu na frente na questão do empoderamento feminino, ao lançar “Mulher-Maravilha”, de Patty Jenkins, em 2017, e foi por trilhas do romantismo clássico com o brilhante “Aquaman”, de James Wan. Mas nada que o estúdio fez até aqui, nessa corrida pelo gosto do público, alcança a excelência de “Shazam!” em dramaturgia e na forma, graças à fotografia do belga Maxime Alexandre (de “A freira”). Sua luz ressalta o colorido de figurinos e cenários dando a eles um traço similar ao das HQs dos quadrinistas que resgataram e repaginaram Shazam nos anos 1990 e 2000, como Jerry Ordway e Gary Frank. Essa alusão, que cria um amálgama plástico com a linguagem dos quadrinhos, dá a Sandberg potência formal o suficiente para dialogar com cartilhas dos filmes pop de aventura e comédia fantástica dos anos 1980, apogeu de ambos os gêneros. Há uma explícita menção ao (hoje cult) “Quero ser grande” (1988), de Penny Marshall, na curva dramática do menino Billy Batson, que se transforma num Maciste com poderes de relâmpago (e outros dons). À caça do paradeiro da mãe, de quem se perdeu ainda bem guri, Billy (Asher Angel) se torna o escolhido de um feiticeiro milenar que preserva o equilíbrio entre as forças do Bem e os Sete Pecados Capitais. Estes ganharam liberdade ao serem acessados por um pesquisador cheio de cobiça, Thaddeus Sivana – ou, entre nós, brasileiros, Dr. Silvana -, vivido com um grau sombrio de vilania por Mark Strong, um sofisticado ator.

Na trama, escrita com afinada adequação às redes sociais, Billy acaba ganhando habilidades super-humanas, como força extraordinária, voo e o dom de produzir raios e ganha silhueta de adulto, a do poço de carisma Zachary Levi, da série “Chuck” (2007-2012). Essa transformação dá ao filme dois hemisférios. De um lado, vem a batalha de Shazam contra Silvana (que ganha um tom assustador, mais adequado aos novos tempos do que o perfil de cientista louco de seu passado nas HQs). Do outro, temos o rito de formação de um herói, pautado pelo riso, com um timbre que evoca o cinema de Sam Raimi, na franquia “Homem-Aranha”. Levi cresce a cada vez que divide a tela com Jack Dylan Grazer, o jovem Freddy, amigo (e futuro colega de lutas) do personagem.
Generosa na dosagem de adrenalina, a direção de Sandberg encontra o limite preciso entre ação e comédia, sem jamais resvalar nos excessos de chanchada, como visto no desastroso “Thor: Ragnarok” (2017). É um filme sobre a dor de amadurecer, que ganha analgésicos se cercada de amizades, ou de esperanças… ou de magias – o trinômio deste filmaço.
Fazendo jus a seu histórico de bons serviços prestados à dublagem, a “Tela Quente” vai exibir o filme em sua versão brasileira. Nela, Leo Rabelo dublou Shazam e Hércules Franco dubla Silvana.

p.s.: Rola nesta segunda, online, no canal do Centro Cultural Midrash no YouTube, o esperado espetáculo “Fernando Pessoa e a Música Voa”, de Miguel Filliage, com direção do (genial) ator Carlos Meceni. A sessão é às 20h30. No domingo, o ator João Signorelli falou ao P de Pop sobre essa imersão nos poemas de Fernando Pessoa (1888-1935). Nos momentos que antecedem a apresentação, seu companheiro de cena, o ás da música Luiz Bueno (aclamado em sua trajetíra no duo Duofel) teve uma palavrinha (das boas) com o Estadão. “Esse nosso show de hoje é uma oportunidade maravilhosa de poder emprestar minha arte a um espetáculo maior! Digo isso, pois o ator tem tanta propriedade sobre o poeta e o texto que o público se sente vivendo aquele momento de forma intensa e envolvente. Pessoa traz suas dores e questões pessoais que encontram eco em cada espectador, tal a contemporaneidade do texto”, diz Bueno. “É muito impressionante! De cara, ao ler o texto, eu me identifiquei com o personagem e, a cada novo espetáculo, ou mesmo ensaio, descubro uma nova faceta com a qual me identifico”.

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