‘Tela Quente’ abre alas para a série ‘Sob Pressão’

‘Tela Quente’ abre alas para a série ‘Sob Pressão’

Rodrigo Fonseca

10 Julho 2017 | 15h56

Capitão Botelho (Thelmo Fernandes) ameaça os médicos vividos por Julio Andrade e Álamo Facó em “Sob Pressão”: um ‘Tropa de Elite’ de jaleco com sessão nesta segunda na Globo, depois de “Os Dias Eram Assim”

RODRIGO FONSECA
Antídoto contra chavões narrativos, a série Sob Pressão vai ao ar na Rede Globo a partir do dia 25 de julho, em nove capítulos, explorando a labuta dos guerreiros de estetoscópio e jaleco branco dos centros cirúrgicos de periferia. O episódio um tem direito a uma participação de Monarco, um nobre do samba. Mas, como um esquenta para sua estreia, a emissora exibe esta noite, às 22h40, o longa-metragem homônimo que deu origem aos personagens dos seriado, elevando temperatura e pressão da Tela Quente. A direção do filme é de Andrucha Waddington.

Poucos diretores brasileiros da safra revelada na primeira metade da Retomada, ali entre 1995 e 2002, têm uma potência visual e um requinte de enquadramento tão afiados e abertos à depuração do tempo quanto os de Andrucha, que dá um passo a mais (à frente) em sua trajetória investigativa do real com Sob Pressão, lançado em novembro em circuito. O apelido de “novo Tropa de Elite” atribuído ao filme após sua apresentação no Festival do Rio 2016 – de onde saiu com os prêmios de melhor ator, para Julio Andrade, e de melhor coadjuvante, para um fosforescente Stepan Nercessian – não passa por indiretas conexões com a estética favela movie nem pelos arranhões que ele dá na corrupção policial. A comparação vem pela nevralgia em seu ritmo narrativo, taquicárdico do início ao fim, e pelo reaquecimento da vertente de thriller social.

Na telona, o principal acerto deste exercício de hiperrealismo do diretor de Casa de Areia (2005) é a habilidade de aplicar ao longo de 90 minutos de trama hospitalar um clima de filme de ação, padrão Stallone.  

Mais conhecido por filmes acerca de um Brasil profundo, telúrico ou litorâneo, como Eu, Tu, Eles (premiado em Cannes, em 2000), Andrucha aproveitou sua experiência urbana em Gêmeas (1999) e Os Penetras (2012) para explorar as periferias do Rio usando um hospital como metonímia da exclusão. Ali, o cineasta cria uma espécie de geopolítica do Brasil, entre vítimas e algozes, numa Faixa de Gaza assistencial, na qual os médicos suturam mais do que feridas: o bisturi mais afiado é o que desafio os poderes paralelos, seja o da PM, seja o da bandidagem. Nesse aspecto sociológico, Thelmo Fernandes, um ator de talento GG, alcança neste belo filme, vulto à altura de seu amplo ferramental interpretativo sob a farda do Capitão Botelho. Signo vivo de abuso de poder, o oficial desarranja a balança ética no embate de forças (quase marxista) da PM com o corpo de médicos liderado pelo Dr. Evandro (Júlio Andrade, sempre na curva da instabilidade), sob a supervisão do Dr. Samuel (Stepan).

Filmado na Santa Casa de Misericórdia, em Cascadura, com inspiração no livro Sob Pressão — A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro, do Dr. Marcio Maranhão, o novo trabalho de Andrucha faz do Doutor Evandro uma espécie de herói torto, perto do que Steven Soderbergh fez com Clive Owen na série The Knick, na HBO. Caberá a Evandro, cirurgião-chefe de uma unidade clínica ameaçada de fechamento pela chegada de uma administradora (Andréa Beltrão) faminta por downsizing, manter seus pacientes vivos e seus médicos unidos, usando métodos dignos do MacGyver de Profissão: Perigo (tipo o uso de furadeiras de obra). Num tom de aventura e de suspense, o cineasta nunca nos deixa perder de vista o entendimento das crises dos hospitais em âmbito público nacional. E, com isso, ele nos dá um espetáculo febril.