Tela quente: 50 anos de Jodie Foster

Tela quente: 50 anos de Jodie Foster

Rodrigo Fonseca

05 de agosto de 2019 | 10h10

Jodie Foster dirige Julia Roberts no set de “O jogo do dinheiro” (“Money Monster”), tensa produção de US$ 27 milhões sobre os bastidores da TV, que fez sua estreia em Cannes, em 2016

Rodrigo Fonseca
Ao escalar uma exibição de “Jogo do dinheiro” (“Money Monster”) para a Tela Quente desta segunda, a TV Globo levanta a bola para a comemoração dos 50 anos de carreira da atriz e diretora Alicia Christian “Jodie” Foster, detentora de dois Oscars que, em 1969, ainda guria, fez sua primeira participação na indústria audiovisual, no “The Doris Day Show”. Embora atue pouco, e dirija filmes numa produtividade bissexta, com hiatos looooongos entre um e outro, Jodie sempre assalta nosso olhar a cada incursão sua na telona. A agente Clarice Starling de “O silêncio dos inocentes” (1991),  hoje com 56 anos, tem gasto um tempo generoso com a TV e os produtos de streaming, dirigindo séries que se tornaram um fetiche mundial, como “Black Mirror” e “Orange is the new black”. Seu último trabalho como cineasta é o thriller orçado em US$ 27 milhões que o Plim Plim transmite às 22h15, após “A Dona do Pedaço”.

Foi pela televisão que Jodie começou a atuar, na Rede CBS. Falar de TV, como ela faz no elétrico Jogo do Dinheiro (Money Monster), sensação hors-concours de Cannes em 2016, é mais do que uma volta aos origens. Trata-se de uma reflexão sobre o lado mais pop da indústria do entretenimento, na qual ela construiu uma sólida e duplamente oscarizada reputação. Ela ganhou seu par de estatuetas pelo papel de Clarice, em 1992, e por “Acusados”, em 1989.

“Apesar de ter adotado o ambiente financeiro como pano de fundo para esta trama, ela foi idealizada como um painel sobre diferentes manifestações culturais da sociedade americana. É um projeto que nasceu como sátira de costumes dos EUA e virou algo mais globalizado sobre o papel da TV”, disse Jodie na coletiva de imprensa do filme no 69º Festival de Cannes, onde a produção teve calorosa acolhida, sendo considerado pela crítica um dos achados estéticos do evento, por seu timbre de suspense crescente.

Sua receita nas bilheterias foi de US$ 93 milhões. Inspiradíssimo, George Clooney entra em cena como Lee Gates, espécie de Silvio Santos de um programa de TV sobre fianças – o reality show “Money Monster” – da qual Julia Roberts é a produtora Patty Fenn. Tudo lá vai bem, com a audiência em riste, até que o estúdio é invadido por um motorista desempregado, falido e armado: Kyle, vivido por Jack O’Connell. Ele invade o estúdio embrulhado num colete de explosivos. Está disposto a tudo para entender porque o investimento que ele fez, sob a influência do programa de Gates, deu errado, levando-o à bancarrota. O desespero da miséria leva o rapaz a destilar ódio, abrindo espaço para o que Jodie descreve como uma “volta ao passado”:

“A TV faz parte da minha vida desde o início de minha trajetória artística. De certa forma, era como se eu visitasse um ambiente do qual tenho uma memória afetiva bem antiga. Existiu um sabor mais experimental nesse projeto com o fato de ser uma produção de pequeno orçamento, o que me deu muita liberdade. Mas eu precisei ajustar detalhes do roteiro para me adequar à realidade que tínhamos. Só que essa realidade ficou mais doce com a entrada de George. Lembro de ter mandado o roteiro para ele pedindo a sugestão de uma atriz que não nos dissesse ‘Não!’ para o papel da produtora. Aí ele ligou para… Julia Roberts”, disse Jodie, feliz com o apoio do amigo Clooney, que, como ela, também começou via televisão e fez um filme seminal sobre essa mídia: “Boa noite, e boa sorte” (2005).

A presença dele e de Julia garantiu a ela segurança para investir em veredas mais tensas que a do terreno das comédias dramáticas, um gênero que Jodie desbravou como diretora ao filmar Mentes Que Brilham (1991), Feriados em Família (1995) e Um Novo Despertar (2011). “Jogo do dinheiro” vai por outro caminho, o terreno da ação, temperando com adrenalina os esforços de Gates para sobreviver à ira de seu agressor e ajudá-lo a desvendar a verdade sobre uma fraude.

“Um filme como este, com a verba que tínhamos para rodar, necessitou ser reescrito muitas vezes, sempre com a ideia de que estamos transmitindo ao espectador, nas plateias, uma sensação de fracasso. O fracasso aqui é visto sob diferentes pontos de vista, desde o do invasor até o de Gates, passando pelo olhar de uma produtora de TV que parece refém do acaso”, disse Jodie. “Minha preocupação em cada etapa da construção desse roteiro era dar mais profundidade às personagens femininas, sobretudo o papel de Julia e a namorada de Kyle. É importante que a representação das mulheres vá além dos clichês e dos chavões. E, neste caso, queria reforçar parceria ela tem com o personagem de George”.

A versão brasileira do filme é uma aula de dublagem, que deve ser creditada à excelência da direção de Andrea Murucci. Ela dubla Miss Roberts e Marco Antonio Costa empresta sua voz a Clooney, num desempenho primoroso. Aliás, é um crime dissociar esses dois astros desses dubladores da mais fina inteligência.

p.s.: Ainda sobre os filmes da TV do dia, às 2h11, a Globo exibe um dos maiores sucessos da carreira de Cacá Diegues, em seu trânsito pela representação do povo deste nosso país: o blockbuster “Deus é brasileiro” (2003), com Antonio Fagundes no papel do Altíssimo.

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