Boa da Mostra, ‘Technoboss’ leva suingue ao DocLisboa

Boa da Mostra, ‘Technoboss’ leva suingue ao DocLisboa

Rodrigo Fonseca

22 de outubro de 2019 | 12h41


RODRIGO FONSECA
Concebido como um estudo dos enguiços mecânicos (e éticos) inerentes às relações de trabalho no mundo digital, em seu acolhimento de mentes analógicas, avessas ao ctrl alt del, “Technoboss” promete fazer um estrago no Brasil, levando a bandeira lusitana do cinema de inevenção em seu colo. Uma das mais irreverentes atrações de Locarno, na Suíça, onde ganhou o mundo em agosto, esta micareta filosófica aporta por aqui pelas telas paulistas. Ele chega para fortalecer a grade deste ano da 43º Mostra Internacional de São Paulo, com sessão nesta terça, às 17h35, no Espaço Itau, e na quinta, às 17h20, no mesmo espaço. É calcado no carisma de um ator não profissional como protagonista (o jurista e aspirante a Mastroianni ibérico Miguel Lobo Antunes). Calca-se ainda num inusitado misto de ironia e leveza, esta comédia cantada vai ainda encerrar a programação do DocLisboa, no dia 26, em seu Portugal de berço. Se no nietzschiano “John From”, o diretor João Nicolau mapeava a primavera de uma vida (a mocidade), aqui ele se concentra no outono do viver, mas sem o peso do tempo. É uma mistura de “Harry and Tonto” com Jacques Tati. Irmão do escritor António Lobo Antunes, Miguel vive (sem qualquer experiência de atuação prévia) Luís Rovisco, mais antigo representante de uma firma de câmeras de segurança, monitores e sensores de cancelas. O dia a dia da SegurVale – Sistemas Integrados de Controle de Circulação é sua vida há três décadas. Só que sua reforma está para chegar. Na trama editada por Nicolau em parceria com o cineasta italiano Alessandro Comodin, vemos uma jornada do Sr. Rovisco para se manter na euforia, mesmo com a crônica da morte de sua vida profissional já anunciada. Um neto cheio de alegria e um gato, Napoleão, serão seus companheiros num périplo por hotéis e firmas, sempre regado a músicas que desafiam o realismo… mas nem tanto.
“Tenho um carinho pela velhice e pela força criativa que ela carrega, como resistência”, disse João Nicolau ao P de Pop, em Locarno. “Não há vontade metafórica em representar o que se passa em Portugal, como um eco de crises. Existe sim uma percepção do Real, com todas as suas incongruências, mas a vontade aqui é outra, numa relação de atração e repúdio ao musical clássico. Luís Rovisco vai entrar na reforma. Mas eu não desejo representar sua velhice… a velhice… com comiseração. Não há, nele, uma diferença entre erro e acerto, pois ele está bem consigo mesmo. É libertador”.
Primo (sabe-se lá de que grau) do músico e compositor Edu Lobo, Miguel, que vive Rovisco, jamais atuou antes, tendo atraído o olhar de Nicolau ao dançar em uma festa. Mas quem vê seu desempenho, pautado pela leveza, em cena, duvida disso. “Meu único objetivo no set era deixar o João feliz, agradá-lo… mantendo a esperança de que possa deixar os espectadores satisfeitos também”, disse Miguel ao P de Pop ao fim da projeção de “Technoboss” a uma sorridente imprensa. “Pra uma pessoa que nunca fez nada no cinema antes, estrelar um filme inteiro é algo que só se faz às custas de muito trabalho. Ensaiei com Nicolau de junho a agosto do ano passado e tive umas aulas de canto”.
Ainda sobre DocLisboa, nesta quarta a sala Cinema Ideal recebe uma projeção de “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho (objeto de uma ocupação no Itaú Cultural, em SP), em homenagem ao cinema brasileiro.

p.s.: Trabalhando em parceria entre a ECAM (Escuela de Cinematografía y del Audiovisual de la Comunidad de Madrid) e o National Film and Sound Archive of Australia, a Filmoteca Española realiza até novembro uma retrospectiva completa do cineasta Peter Weir, com marcos como “Truman Show” (1998). Nesta terça, serão exibidos seus curtas, essenciais para a consolidação do cinema novo da Austrália, como “Count Vim’s Last Exercise” (1968). Seus filmes também vão ganhar ribalta no Festival de Marrakech (29 de novembro a 7 de dezembro), tendo Tilda Swinton como presidenta do júri.

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