‘Tchekhov é um cogumelo’ do mais fino sabor

‘Tchekhov é um cogumelo’ do mais fino sabor

Rodrigo Fonseca

02 Julho 2018 | 16h04

Rodrigo Fonseca
Depois da radicalíssima experiência de Lobo, experimento de Carolina Bianchi que serviu de cereja (das mais suculentas) ao bolo do Teatro em Cena Internacional 2018, no CCBB-RJ, era difícil crer que algum exercício cênico pudesse galvanizar a potência de debate do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro em igual medida… isso até ver Tchekhov é um Cogumelo. A encenação é de André Guerreiro Lopes, um artista multimídia capaz de surpreender nas mais variadas latitudes. Em termos plásticos, o ambiente no qual esse diretor espatifa o osso das palavras do autor de A Gaivota evoca a força dionisíaca de A Viagem do Capitão Tornado (1990), filme de Ettore Scola. Talvez a referência não seja consciente, e venha mais de quem observa do que quem conta, mas ela está lá pela celebração da vida num ambiente de patologias morais. O autor russo entra no jogo cênico como um vetor para as energias desprendidas entre falas, coreografias e um trabalho meditativo de Guerreiro Lopes,  com um capacete de eletrodos que capta sua atividade cerebral e a transforma em impulsos elétricos. Estes acionam, em tempo real, uma instalação sonora e visual criada pelo músico Gregory Slivar, com reflexos nas cenas em que a mondiglianesca Michele Matalon (com uma máscara trágica primorosa), uma neorrealista Djin Sganzerla e a etérea Helena Ignez trançam um jogo de armar a partir de As Três Irmãs. É menos um tratado moral tchekhoviano e mais um ensaio sobre as metamorfoses da essência humana, nietzschiano até a última gota de suor derrubada pelo trio. Tem ecos de Zaratustra ao apontar para as transformações para o espírito feminino (ainda que universalizado para além de estratagemas de gênero) e para a dimensão ritual do teatro do como mimese do Infinito. A cosmogonia que Helena Ignez procura em suas incursões no cinema desde os anos 1960 – como excelente atriz e como a excepcional diretora que se tornou – se dá por um diálogo com uma entrevista em vídeo de Zé Celso. São palavras do passado, registradas nos anos 1990, mas vivificada num devir filosófico potente. É uma peça de investigação sobre a arte de atuar, sobre a jira do palco e sobre as desinências mais profundas do verbo “viver”. Imperdível para quem buscar inquietação. Um farol para iluminar os caminhos para os quais Guerreiro Lopes tem nos conduzido a partir de projetos como O Voo de Tulugaq: a delicadeza dele na direção é notável. E como o trabalho vocal de Djin tem se tonificado desde suas primeiras incursões nas telas, tornando-a uma atriz com mais e melhores recursos de dor para a cena. Qualquer cena.  
Fica mais tempo no CCBB do Rio. Corre lá.