‘Taxi Driver’ na noite da Globo

‘Taxi Driver’ na noite da Globo

Rodrigo Fonseca

08 de outubro de 2019 | 10h30


RODRIGO FONSECA
Visto por 1,9 milhão de pagantes em solo brasileiro de quinta a domingo, “Coringa” tem um dedo (e muito afeto) da equipe de Martin Scorsese, o que vem gerando uma série de comparações (bem pertinentes) entre o desempenho de Joaquin Phoenix e a icônica atuação “Are you talkin’ to me” de Robert De Niro em “Taxi Driver” (1976), atração da TV Globo desta madrugada. De Niro também atua no filmaço do Palhaço do Crime de Gotham, o que criou ainda mais aproximação entre os dois longas-metragens. O De Niro que será visto esta noite na emissora carioca, à 1h50, após o programa do Pedro Bial, carrega uma
centelha de rebeldia e de juventude singular. A imagem adoecida dele como um chofer de praça que se imola como Cordeiro de Deus para “limpar” as ruas de Nova York ganhou as telas do mundo, pela primeira vez, em uma projeção no Festival de Cannes, de onde saiu com a Palma de Ouro. O culto em torno do longa garantiu um prestígio que Scorsese foi renovando ao longo das quatro décadas seguintes. Neste sábado ele leva seu novo trabalho, o thriller de máfia “The Irishman” (aqui é “O Irlandês”) para o BFI London Film Festival, na Inglaterra. No dia 27 de novembro, essa superprodução com De Niro, Joe Pesci e Al Pacino vai entrar na grade da Netflix.
Há uma semana, “O Irlandês” nasceu pro cinema em uma projeção no Festival de Nova York, um evento em ascensão.
Festivais gozam do afeto de Scorsese porque foi na Croisette, em 1974, em que ele, então um iniciante, exibiu o longa-metragem que bancou seu passe para o estrelato: “Caminhos perigosos” (“Mean streets), cuja cópia nova deve voltar a circuito em 2020, ao menos na França. “Quando eu trouxe esse filme pra Cannes, nos anos 1970, eu desfrutava de um anonimato que me permita ir de restaurante em restaurante, espiar o Wim Wenders e o Werner Herzog, que estavam começando também, e falar horas e horas sobre filmes. Era uma época em que a gente sabia onde estava cada objeto de uma cena filmada por diretores como Raoul Walsh, a quem eu idolatrava e ainda idolatro, como quem sabe a geografia de um espaço. Era geografia de set”, contou o diretor em Cannes, em 2018, com a incontinência verbal (tensa e tímida) que lhe é peculiar.

Na ocasião, ele ganhou o troféu honorário Carroça de Ouro e falou muito sobre a importância de “Taxi Driver” para o futuro que viria a construir. “Era um tempo de risco”, disse o diretor, que participa como ator do longa, a ser exibido pela Globo em versão brasileira, com Reginaldo Primo dublando De Niro.

Hércules Franco dubla Scorsese, que entrou na filmagem substituindo um mestre. O projeto de “Taxi Driver” veio do casal de produtores es Julia e Michael Phillips, cuja ideia inicial era confiar a direção a Robert Mulligan (1925-2008). Realizador do sucesso “O sol é para todos” (1962), Mulligan foi a primeira opção para narrar as neuroses do taxista Travis Bickle, que volta do Vietnã e inicia um conflito contra os marginais de Nova York. Mas, nas primeiras reuniões de produção, os Phillips perceberam a necessidade de um cineasta mais jovem, antenado às inquietações da geração que começava a revolucionar o cinema nos EUA. Mulligan parecia desconectado com o calvário sociológico que Julia e Micael buscavam levar às telas. Cogitou-se então Brian De Palma, para a direção, e Jeff Bridges para assumir o papel de Bickle. Mas o êxito da dupla Scorsese e Robert De Niro na radiografia urbana chamada “Caminhos perigosos”, lançada em 1973, mudou os rumos do filme.
Em uma entrevista publicada no jornal O Globo em 2011, o roteirista do longa, Paul Schrader, fez um melancólico balanço daquele momento da História, na indústria audiovisual.
“Quando eu entrei para o mundo do cinema, no fim dos anos 1960, o mercado cinematográfico também enfrentava uma crise. Mas era uma crise de conteúdo. Os filmes careciam de novos temas, novos heróis, novas atitudes. Mas, ao fim daquela crise, no início dos anos 1970, embarcamos num período de cerca de 15 anos de produções que traziam uma centelha de reinvenção, que desafiava a moral da tradição”, conta Schrader, que acabou trabalhando em dobradinha com Scorsese, adaptando os diálogos para o falar coloquial de De Niro.

Juntos, ele, o ator e Scorsese fizeram de “Taxi driver” um marco da chamada Nova Hollywood, projetando ainda os jovens Harvey Keitel e Cybill Shepherd, além de uma Jodie Foster cheirando a leite, com 13 anos. Orçado em US$ 1,3 milhão, o filme foi laureado com a Palma Dourada de Cannes, sendo indicado a quatro Oscars (sem ganhar nenhum) e coroado com uma bilheteria de US$ 28 milhões.

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