‘Tatuagem’, saudade à flor da pele

‘Tatuagem’, saudade à flor da pele

Rodrigo Fonseca

27 de janeiro de 2021 | 08h18

RODRIGO FONSECA
Tem espaço no streaming para um dos mais belos poemas de amor já traduzidos em forma de cinema: “Tatuagem” (2003), de Hilton Lacerda. É uma das opções de maior potência do cardápio brasileiro da Netflix. Sua passagem por festivais no Brasil, partir de Gramado, foi das mais comoventes.

Do fino da fossa à apoteose da saudade, do desabafo amoroso à marchinha, da ladainha romântica à quaresma pós-Quarta de Cinzas, duas canções servem de bússola à “Tatuagem”. Arquitetado como sinestesia a partir da fotografia sensorial de Ivo Lopes Araújo, o longa-metragem foi responsável por consagrar um dos roteiristas mais aclamados do país, o pernambucano Hilton Lacerda, como diretor de ficção. Em seu eixo de abertura vem “Esse cara”, e, de seu fecho, brota “Bandeira branca”. No trânsito de uma música à outra, numa reconstituição de Pernambuco em 1978, acossado pelo governo militar, uma paixão de opção declarada pela igualdade (de sexos e de quereres) vai sendo costurada. Ao mesmo tempo se desenha um painel de formas de resistência à repressão (ditatorial, sexual, em suma, ideológica). Nele, uma trupe teatral, alocada em um cabaré, o Chão de Estrelas, serve como um bunker para a liberdade a fim de combater a opressão fardada no governo. Ali, o diretor/mentor do grupo se joga nos braços de um soldado recém-integrado às Forças Armadas.

Quem mais (e melhor) resiste aos milicos (e a todo o resto), no recorte histórico/estético de Lacerda, são as artes. De um lado, a arte de representar (na forma do teatro, da poesia e do cinema) e a arte de amar (na forma fálica de um aríete em marcha contra a hipocrisia). No casamento desses dois hemisférios, celebrado em um gesto político, surge um longa noutros e caretíssimos tempos rotulado de “filme-gay”, mas que, num olhar lúdico sobre a homoafetividade, transcende bandeiras. O corpo é seu leme, seu norte. O corpo como estandarte da vida, em suas planícies e falésias, seus desastres e seus carnavais.

Incorporando Maria Bethânia, de microfone em punho, Clécio Wanderley (Irandhir Santos, sublime), ator, dramaturgo e líder do clã de artistas responsável pela ocupação do Chão de Estrelas, amplia a libido da Recife dos anos 1970 ao som de “Esse cara”. Nos versos “Ele está na minha vida/ porque quer/ eu estou pro que der vier”, Clécinho dá sinal verde para que desejos tatuados em corações empapuçados de cerveja ganhem forma e suor. Entre eles o desejo que sente por um jovem recruta, Arlindo, vulgo Fininha, interpretado por Jesuíta Barbosa. Os beijos trocados por eles, nas madrugadas, pavimentam uma relação sólida em um mundo em transformação: uma cidade que, feito um espelho do Brasil, reflete as instabilidades políticas dos anos de chumbo. Um mundo desafiado pelas irreverências de Clécio e seus atores em números musicais como a “Canção do Cu”, mimo da trilha de Dj Dolores.

Mas o bem-querer de Clécio e Fininha é apenas uma de muitas relações cimentadas por Lacerda numa narrativa interessada em conjugar o verbo gostar (de alguém) sob diferentes desinências. Entre elas estão a paternidade (pós-moderna) e a amizade, representada na tensão coberta a plumas entre Clécio e a diva do cabaré, Paulette (vivido por Rodrigo Garcia, em um brinco de atuação).

Xará do thriller dirigido em 1981 por Bob Brooks com Bruce Dern e de um drama alemão de Johannes Schaaf, a “Tatuagem” audiovisual de Lacerda, retocada pela atuação devastadora de Irandhir, demarcou (uma vez mais) o (alto) relevo da linhagem recifense no cinema nacional. Foi abençoada com o Kikito de melhor filme em Gramado, quatro troféus Redentor no Festival do Rio (incluindo o prêmio Fipresci, da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) e com a fama de ter esgarçado as fronteiras da discussão sobre identidade sexual na tela para fora das entradas e bandeiras de guetos e nichos. E, quando vem “Bandeira branca”, gemido por Dalva de Oliveira como um fado, sabe-se que Lacerda pede paz ao esquadrinhar nossa capacidade de perder e de nos regenerarmos na bitola Super-8 do amor, pois tatuados ficamos… tatuados estamos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.