Tango de Béla Tarr acorda Locarno

Tango de Béla Tarr acorda Locarno

Rodrigo Fonseca

15 de agosto de 2019 | 14h24

Rodrigo Fonseca
Em seus momentos finais, prestes a saber para quem o júri presidido pela diretora francesa Catherine Breillat vai entregar o Leopardo de Ouro (fala-se no português “Vitalina Varela”, no brasileiro “A febre” e no americano “The last black man in San Francisco como potenciais premiados), o 72º Festival de Locarno fez uma celebração do cinema europeu de invenção em um de seus estados mais radicais ao exibir, nesta quinta, uma cópia em 4K de “O tango de satã”. Marco da resistência autoral no Velho Mundo, “Sátántangó” (no original), pérola do húngaro Béla Tarr, com seus 450 minutos de fervorosa potência plástica, foi projetado a partir das 9h30, na maratona cinéfila suíça. A produção de 1994 teve sua versão digital lançada na Berlinale, que deu ao mítico diretor deste filmaço uma de suas mais merecidas honrarias. Na capital alemã, o realizador, hoje com 64 anos, recebeu o Urso de Prata de melhor direção, de 2011, por “O cavalo de Turim”, seu último longa-metragem de ficção até agora, diante de uma aposentadoria, que ele agora começa a contestar. Não por acaso, em 2017, ele dirigiu o curta “Muhamed” e concluiu, em junho deste ano, o documentário “Missing people”, para um evento austríaco.

“Venho de uma pátria que sentiu o peso da História na forma da fome. Mas que, mesmo abalada pelo ronco em seu estômago, nunca desistiu do prazer da criação. Criar é celebrar a alegria de resistir à castração da ordem”, disse Béla Tarr em uma entrevista ao P de Pop em 2015, quando foi lançado o documentário “Um filme de cinema”, do diretor paraibano Walter Carvalho, no qual ele é um dos entrevistados. “Eu resolvi me afastar da direção no ato em que me dei conta do peso da idade e do quanto a vida é curta. Na cultura da escassez, a abundância da vida precisa ser aproveitada”.

Aos 64 anos, o mestre húngaro dribla sua aposentadoria para filmar de novo

Filmes como “Maldição” (“Kárhozat“, 1987) e o genial “Harmonias de Werckmeister” (“Werckmeister harmóniák“, 2000) fizeram de Tarr um dos diretores mais estudados da atualidade. Ele não quer mais filmar, mas segue lecionando. László Nemes, o oscarizado diretor de “O filho de Saul” (2015), foi um de seus discípulos. “Não faço filmes para estrelas da cultura pop terem holofotes. Minha estrela é o Tempo e seu efeito sensível sobre nossas vidas. Também não tenho a vaidade de aderir ao digital. A tecnologia digital humilha a imagem, porque não tem a qualidade da impressão da fotografia em película”, disse Tarr. “A imagem deve ser preservada em sua força plena”.

No sábado, “To the ends of the Earth”, do japonês Kiyoshi Kurosawa, vai encerrar a festa cinematográfica de Locarno.

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