Tambores à italiana para Volker Schlöndorff

Tambores à italiana para Volker Schlöndorff

Rodrigo Fonseca

12 de fevereiro de 2021 | 16h36

Volker Schlöndorff no Festival de Berlim, ao lançar “Return to Montauk”

RODRIGO FONSECA
Inédito no Brasil quatro anos após sua estreia mundial, “Return to Montauk”, uma das mais belas revelações do Festival de Berlim na década passada, vai ser revisitado pela Bergamo Film Meeting 2021 (agendada de 24 de abril a 2 de maio na Itália), numa retrospectiva dos feitos de seu diretor, o alemão Volker Schlöndorff, hoje com 81 anos. Essa love story em tempos de madureza, sobre dois amantes do passado que se reencontram, bate forte não apenas por trazer um memorável desempenho do sueco Stellan Skarsgård, em estado de graça na tela, mas por marcar a volta de um mito do Cinema Novo Alemão à sua melhor forma. Há tempos, Schlöndorff, ganhador da Palma de Ouro e do Oscar por “O Tambor” (1979), não apresentava algo tão potente. Há ecos de sua vida pessoal na trama, centrada no reencontro entre dois germânicos em Nova York: Zorn (Skarsgård) é um romancista de respeito e Barbara (Nina Hoss) é uma advogada classe A. Eles já se amaram muito, mas ficaram contas a acertar desse querer. E Zorn espera cobrar a dívida em uma viagem aos EUA. Embora o título possa evocar o lugar para onde os personagens de Jim Carrey e Kate Winslet se dirigiam em “Brilho Eterno de uma Mentes Sem Lembranças” (2004), a narrativa de Zorn e Barbara é muito menos fantasiosa que a da obra-prima de Michel Gondry. Em lugar de fantasia, Schlöndorff enxerga cicatrizes:
“Trabalhei muito tempo na América e isso mexei com meu olhar sobre muitas coisas, que falam alto agora em que já não tenho mais disposição para pensar num tipo de arte que mude o mundo”, disse Schlöndorff ao Estadão, na Berlinale de 2017, no mesmo ano em que rodou o thriller “Der namenlose Tag”, também inédito aqui. “Cheguei aos Estados Unidos com a intelectualidade típica de um artista europeu, achando que tudo deveria carregar uma marca autoral, e, lá, eu vi uma realidade muito distinta, mais industrial, na qual você cumpre metas e filma com base em um contrato, sob o controle de um produtor. Lá aprendi a intelectualizar menos. Aprendia a ‘apenas fazer’. E isso não torna a arte menos legítima. Voltar a Nova York agora com ‘Return to Montauk’ me rememora essa experiência”.

Serão exibidas 22 produções na mostra de Schlöndorff em Bergamo, incluindo seu “O Jovem Törless” (1966), laureado com o prêmio da Crítica pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) e considerado um dos pilares do Novo Cinema Alemão. Ele chamou Sam Shephard (então no auge de sua fama como dramaturgo) para protagonizar seu doce “O Viajante” (1991). E ele ainda dirigiu Dustin Hoffman numa versão telefilme da peça “A Morte De Um Caixeiro Viajante”, lançada em 1985, na rede CBS. O projeto rendeu o Globo de Ouro a Hoffman. Outra joia de Schlöndorff é “Crime em Palmetto”, com Woody Harrelson, que ficou semanas entre os longas mais assistidos dos EUA, no circuito de filmes menos comerciais, em 1998. Seu último trabalho lançado aqui foi “Diplomacia”, em 2015.

p.s.: Doída, a partida de Jean-Claude Carrière (1931-2021), na segunda-feira, vem mobilizando retrospectivas da obra do aclamado roteirista e escritor em diversos canais a cabo, como o Curta!, em uma homenagem a seu legado. Entra no Curta!On uma entrevista de Carrière, que foi tema de episódio da série “Impressões do Mundo”, além de um documentário sobre o filme “O Discreto Charme da Burguesia” (1972), roteirizado por ele. O .doc que parte da série “Filmes Que Marcaram Época”. Ambas as produções estão na pasta “Degustação” e podem ser assistidas por qualquer assinante da NET / Claro, ainda que não tenham assinado o Curta!On. As séries estão disponíveis na íntegra no Curta!On, apenas para participantes do chamado Clube de Documentários.

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