‘Talk Radio’: Verdades que matam nas ondas FM do teatro carioca

‘Talk Radio’: Verdades que matam nas ondas FM do teatro carioca

Rodrigo Fonseca

15 Outubro 2015 | 17h31

Com o adiamento do filme Snowden, com Joseph Gordon-Levitt, de dezembro para 16 de maio de 2016, vai levar um tempinho extra até o diretor Oliver Stone regressar à tela grande. Porém, nos palcos cariocas, um texto celebrizado por ele nos cinemas promete elevar a temperatura e a pressão do teatro brasileiro: Talk Radio. A releitura, encenada sob a direção de Maria Maya, estreia no Rio de Janeiro no dia 23, às 21h, no Teatro Solar de Botafogo, onde fica até 20 de dezembro, com tempo de sobra para destilar todo o fel da prosódia cênica do autor americano Eric Bogosian. Lançada em 1987 com grande polêmica por sua abrasiva crônica social, a peça foi laureada com o prêmio Pulitzer pela virulência de seus diálogos e pela acuidade de seu olhar sobre diferentes formas de exclusão numa América sob a presidência de Ronald Reagan, expressas no cotidiano de um radialista sem travas na língua.

Leonardo Franco ao microfone como o radialista Barry Champlain na montagem de Maria Maya

Leonardo Franco ao microfone como o radialista Barry Champlain na montagem de Maria Maya

Personagem mítico, o locutor Barry Champlain foi interpretado pelo próprio Bogosian em sua versão longa-metragem, que conquistou um prêmio especial no Festival de Berlim de 1989 para o desempenho de seu protagonista. Agora no Brasil, é (o ótimo) Leonardo Franco (da série Preamar) quem encarna Champlain. Na montagem de Maria MayaFranco divide os palcos com Alexandre Varella, Bernardo Mendes, Marcelo Aquino, Mariana Consoli, Raul Franco e Stela Maria Rodriygues, todos sob a iluminação de Adriana Ortiz. “Este texto pode ser uma crônica da realidade ou uma comédia cáustica urbana, pois não é claro para mim qual é o gênero dele”, questiona a diretora Maria Maya. “O que é claro na peça é: essa dramaturgia, nascida nos Estados Unidos, também está falando no nosso país, neste momento de crise. Aliás, ela pode estar falando de todos os países, porque há algo de muito contemporâneo nela ao mostrar que a intolerância não está apenas nas mãos do que utilizam os meios da mídia para manipular opiniões. A intolerância também está em quem é passivo e aceita a realidade como ela está. Intolerante é quem não se comunica”.

Na trama, Champlain (Franco) comanda, todas as madrugadas, o programa Night Talk, da rádio WTLK, de Cleveland, Ohio, onde responde aos telefonemas de ouvintes nada convencionais, quase todos assombrados pela solidão. O programa trata de assuntos polêmicos, como legalização de drogas, homossexualismo, racismo, preconceitos e diferenças religiosas, tendo na intolerância sua palavra de ordem. Com base no mais fino sarcasmo, Champlain zomba da dor alheia em um esforço de demolir o politicamente correto.

Barry Champlain é um daqueles personagens para serem amados e odiados. Ele é uma daquelas figuras que se apoderam do dom da palavra nos meios de comunicação, tipo aquela gente que vemos nos programas apelativos de polícia à tarde nas TVs. Mas ele não é assim apenas porque fica colocando o dedo nas nossas feridas. É assim por ter complexidades, fraquezas e medos tão grandes quanto os nossos”, diz Maria Maya, que dividiu os palcos com Franco na bem-sucedida montagem de A Loba de Ray-Ban, ao lado de Christiane Torloni, em 2009.

Parceira de Franco também na montagem de Um Grande Garoto, que dirigiu em 2014, Maria preferiu não ver o filme de Stone nem ler o texto original, construindo a encenação com base na tradução e na direção dos atores. “Não quis trabalhar com informações sobre a peça por uma opção criativa que me possibilitasse oferecer um olhar genuíno. Receber uma dramaturgia dessa forma, sem contato com adaptações anteriores, permite que eu ressalte o que há de mais contemporâneo nela. Minha curiosidade, no teatro, é dar a minha visão pessoal para as obras que eu estou encenando, sem ser obrigada a fazer apenas o que as rubricas do autor exigem”, diz a diretora. “Hoje, neste mundo onde a violência anda tão grande de modo as pessoas se questionarem se devem sair de casa para ir ao teatro ou não, uma peça precisa criar mecanismos para fazer com que, durante uma hora, o espectador não se disperse, pensando no que está lá fora. Na nossa encenação de Talk Radio, eu não uso offs: os atores que vivem os personagens da rádio também encarnam os ouvintes. Utilizo metalinguagem, meclando realidade e ficção”.

Eric Bogosian foi premiado no Festival de Berlim pela versão de Oliver Stone para sua peça

Eric Bogosian foi premiado no Festival de Berlim pela versão de Oliver Stone para sua peça

Falando nesta mescla, um dos aspectos mais surpreendentes da releitura de Stone para Talk Radio, lançado no Brasil com o subtítulo Verdades Que Matam é a câmera do fotógrafo Robert Richardson (o mesmo de Kill Bill), que raro sai do ambiente da rádio, criando um clima claustrofóbico. Sua claustrofobia é um reflexo do destempero nas ruas, à sombra de uma administração política desordenada.

Já que o papo é teatro, Bogosian estrelou em 2009 na Broadway uma peça com “P” que merecia uma encenação no Brasil: Time Stands Still, de Donald Margulies, ao lado da deusa Laura Linney e de uma afiada Christina Ricci. O texto aborda uma drama de uma fotojornalista que retorna do Iraque ferida de guerra.

p.s. 1: Ainda das coxias: a Cia Teatro Portátil anda a comemorar seus 10 anos de travessia pelo imaginário teatral com o espetáculo 2 Números. Construído com o uso de objetos como máscaras e bonecos, a peça ficará em cartaz até 31 de outubro no Teatro Eva Herz, no Centro do Rio.

p.s.2: Nos cinemas: quem ainda viu Operações Especiais, não tem motivo de temer. Tomás Portella dialogou com dignidade com a cartilha do cinema direção, sob um sotaque brasileiro, apoiado no talento de Fabrício Boliveira e no carisma de Antonio Tabet como uma versão pós-moderna de Jece Valadão. A adrenalina entra na dose certa.

p.s.3: Falando agora sobre os restos mortais do Festival do Rio 2015: a repescagem está rolando no Cine Odeon, que reservou para este domingo, às 18h30m, o obrigatório thriller social argentino Paulina (La Patota), que venceu a seleção competitiva da Semana da Crítica em Cannes, em maio, consagrando o diretor Santiago Mitre. Confira.