‘Sweet Thing’, o mel de Tribeca

‘Sweet Thing’, o mel de Tribeca

Rodrigo Fonseca

18 de abril de 2020 | 10h36

Lana Rockwell vive Billie, adolescente que foge do alcoolismo do pai e da brutalidade do padrasto em “Sweet Thing”, ganhador do Urso de Cristal na Berlinale

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Ganhador do Urso de Cristal na mostra Generation Kplus do 70º Festival de Berlim, “Sweet Thing”, um delicadíssimo e truffautiano drama geracional feito em família pelo sumido diretor Alexandre Rockwell (“Alguém para Amar”), encontra agora em Tribeca, em sua encarnação online, mais holofotes para realçar sua beleza na representação das agruras de se viver com os vinténs contados. Conhecido por aqui, em especial, por sua participação (com Allison Anders, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez) no coletivo de “Grande Hotel” (1995), o cineasta e (há muito) professor da NYU rodou este estudo sobre reconexões afetivas com a ajuda da mulher, a atriz Karyn Parsons, e os filhos adolescentes: Lana (um achado de boa atriz) e Nico. Até o dia 26 de abril, a maratona cinéfila nova-iorquina de Tribeca, fundada por Robert De Niro após o 11 de Setembro, está rolando no site do evento (https://tribecafilm.com/festival) em respeito à 40ena. Na trama, situada ao redor de um Natal amargo, Billie (Lana) e seu maninho Nico (o personagem é xará do ator mirim) tentam driblar as carraspanas constantes do pai bebum, Adam (Will Patton, em brilhante atuação), até que este é detido pela polícia e forçado a ir para o AA. Sem eira, nem beira, ambos vão viver com a mãe que os abandonou, Eve (Karyn) e com seu marido abusivo (M.L. Josepher). Num ambiente ainda mais hostil do que o universo de pobreza e vermute onde cresciam, eles vão precisar se reinventar, com a ajuda de um rapaz cheio de manhas acerca do jogo da sobrevivência nas ruas, Malik (Jabari Watkins). Tem muito de “Os Incompreendidos” (1959) na maneira como eles vão domar as intempéries do desdém afetivo e da falta de perspectiva. A fotografia em P&B (com sazonais rasgos de cor) de Lasse Ulvedal Tolbøll é o que mais transpira Truffaut em cena.

Outro destaque de Tribeca é a delicada produção catalã “Vera”, de Laura Rubirola, com a diva chilena Paulina García no papel de uma faxineira fã de música clássica que toma uma dose de alumbramento com Vivaldi. Da competição americana, merece aplausos a comédia de erros “12 Hour Shift”, da diretora Bea Grant, com um show de atuação de Angela Bettis no papel de uma enfermeira envolvida em roubo de órgãos.

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