‘Swallow’ engole Tribeca com suspense psicológico e medo

‘Swallow’ engole Tribeca com suspense psicológico e medo

Rodrigo Fonseca

29 de abril de 2019 | 13h48

Rodrigo Fonseca
É dia de terror na disputa de prêmios de Tribeca. Diante da alta do gênero, um thriller entre o suspense psicológico (à la “Repulsa ao sexo”) e o horror vai tentar a sorte no festival nova-iorquino, que começou suas atividades em 2002, em resposta ao trauma do 11 de Setembro: “Swallow”, de Carlo Mirabella-Davis (na foto acima). No enredo, Haley Bennett é uma jovem grávida que tem uma vida perfeita até o momento em que engole uma bolinha de gude. Dali pra adiante, ela vai desenvolver uma compulsão por engolir objetos inusitados. Essa “fome” desmedida tem conexões com um segredo terrível, que pode liberar seus demônios.

Até o momento “Gully” continua sendo a ficção mais possante entre os longas exibidos no festival até agora, tendo o brasileiro Adriano Goldman como seu fotógrafo: em seus 90 ásperos minutos, o drama de Nabil Elerdkin acompanha o cotidiano de três amigos em uma Los Angeles pautada pela violência. O racismo é um dos focos da trama, que aborda o abuso sexual de um adolescente afro-americano por um intelectual branco. Entre os concorrentes a prêmios vistos de quarta-feira até agora, nada foi mais poderoso. Seu maior rival é “Burning cane”, de Phillip Yousmans: painel do dia a dia na Louisiana, tendo entre seus eixos narrativos o dilema de um pastor negro (Wendell Pierce, em atuação memorável) que perdeu a mulher.

Margot Robbie abalou Tribeca no domingo com sua atuação feroz em “Dreamland”. Misto de western com “Bonnie & Clyde” (1967), o longa de Miles Joris-Peyrafitte recria a América da Grande Depressão a partir dos feitos de uma ladra de bancos, Allison Wells (Margot) cuja cabeça vale US$ 20 mil entre os caçadores de recompensas. Não falta ação à narrativa. Nem charme.   

Três dias depois de ter chacoalhado as certezas políticas dos americanos sobre a extinta URSS com “Meeting Gorbachev”, já exibido no Brasil pelo É Tudo Verdade, o alemão radicado em LA Werner Herzog volta a provocar Tribeca com um segundo título documental no evento: “Nomad: In the footsteps of Bruce Chatwin”. A produção resgata as memórias do escritor inglês responsável por livros de viagem cultuados por sua riqueza literária e sua etnografia como “In Patagonia” (1977). Chatwin (1940-1989) deixou como herança para seu amigo germânico responsável por cults como “Aguirre, a cólera dos deuses” (1972) a mochila que o acompanhava em suas andanças pelo planeta, em expedições arqueológicas e paleontólogas. O novo filme do cineasta é uma revisão das recordações que o autor britânico colecionou.

Nesta terça, Tribeca confere o novo exercício autoral de Abel Ferrara (“Vício frenético”) pela seara dos documentários: “The projectionist”, uma radiografia do wildest side de Nova York a partir das histórias de Nick Nicolaou, um exibidor de filmes que começou na cena adulta. Ele é uma memória viva das transformações da cidade. Ainda na terça, a diretora Katherine O’Brien arrancará de Simon Pegg uma atuação digna de Oscar, distante de sua habitual linha cômica, em “Lost transmissions”. Ele vive um executivo da indústria da música, com uma esquizofrenia galopante, que se aproxima de uma jovem compositora (Juno Temple) com potencial para virar uma estrela.  O festival segue até o dia 5 de maio.

p.s.: Nesta segunda, após “Se eu fechar os olhos agora”, lá pelas 23h05, a Globo exibe em sua “Tela Quente” o efervescente “Atentado em Paris” (“Bastille Day” ou “The take”), com Idris Elba no ápice do carisma. O astro e diretor inglês vive um agente às voltas com um atentado terrorista na capital francesa. Richard Madden, Charlotte Le Bon, Kelly Reilly e o ótimo José Garcia completam o elenco. O ótimo Ronaldo Júlio dubla Elba  no Brasil. Aliás, o filmaço que ele dirigiu em 2018, “Yardie”, segue inédito em solo nacional.

p.s.2: De acordo com o site europeu RLT, o cineasta tunisiano Abdellatif Kechiche, diretor do cult “O azul é a cor mais quente”, laureado com a Palma de Ouro em 2013, voltará à disputa de Cannes este ano com “Mektoub My Love: Intermezzo”, sequência do memorável painel geracional “Mektoub My Love: Canto Uno”, de 2017, ainda inédito por aqui. O festival francês ainda não confirmou a notícia, mas…

Tendências: