Svetlana Aleksiévitch ganha rosto nos palcos

Svetlana Aleksiévitch ganha rosto nos palcos

Rodrigo Fonseca

17 de julho de 2019 | 11h56

Carolyna Aguiar em clique de Carmo Dalla Vecchia em cena de “War’s Unwomanly Face”, que será encenado quarta e quinta no Midrash, no RJ

Rodrigo Fonseca
Pólvora geopolítica sobre o feminino em seu gerúndio mais feroz, a literatura da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch (ganhadora do Nobel de Letras de 2015) vai fazer eclipse esta noite, no palco do Midrash Centro Cultural-RJ, no Leblon, mesclando a lua da palavra ao sol do gesto, sob a direção de um Dick Tracy da arte de atuar. É Marcello Bosschar quem desfia as contas do rosário de vivências cênicas da atriz Carolyna Aguiar, num corpo a corpo com os verbos de ação da laureada autora, a partir da educação pela pedra chamada “A guerra não tem rosto de mulher”. Nele, desfilam cantigas de dor, cerzidas nos relatos de soviéticas que foram atirar nas tropas hitleristas sob a glória de Stalin e do Partido, sob fome roncante, frio extremo, convulsões e ideologias. Capaz de causar tétano com sua descrição digna de cinema direto, o livro, assim traduzido pela Cia das Letras, em 2016, entrou em trabalho de parto lá fora em 1985, sendo retocado em 2000. A versão que será encenada nesta quarta e na quinta, às 20h30, no 5º Festival Midrash de Teatro se chama “War’s Unwomanly Face”, num anglicismo que sugere universalidade. A mesma que Svetlana amalgama em desabafos do tipo:

“Todas as pessoas têm coisas importantes para contar. Se criarmos um ambiente de confiança, calmo, íntimo, surgem grandes histórias. Pessoas sem importância têm grandes histórias. Mas se faço uma pergunta banal, obtenho uma resposta banal. As pessoas têm uma grande necessidade de falar de coisas sérias. Mas acontece que não lhes dão oportunidade. Ninguém as quer ouvir. Vivemos num mundo de banalidade. O trabalho do escritor é resgatar as pessoas dessa banalidade.”

Avesso à derrama vaga e gaga da alienação, Bosschar assina a direção a partir de uma dramaturgia construída a quatro mãos com Carolyna: “Nós fizemos a seleção das histórias e as costuramos juntos, de uma forma onde possamos acrescentar ou substituir por outras histórias do livro. O livro contém 200 histórias e nós utilizamos em torno de 43 na peça”, explica o encenador pernambucano, que dirigiu peças como “Os anjos”, na Finlândia, e “A náusea”, em Copenhagen. “Às vezes usamos um fragmento de um causo entre uma história mais longa e outra. A peça funciona como um fluxo contínuo de memórias divididas na seguinte trajetória: 1) Seleção de histórias da ida de jovens meninas para a guerra onde elas não tinham ideia do que as esperava; 2) Preparação para entrar no campo de batalha; 3) Os horrores da guerra; 4) Os aspectos cotidianos e poéticos, namoros e juramentos que faziam parte da guerra; 5) É sempre mais escuro logo antes do sol nascer. Prisão e torturas e a decisão de não morrer nas mãos do inimigo; 6) Vitória;  7) Continuamos matando.


Atualmente contratado da TV Globo, onde auxilia atores a encontrar a alquimia capaz de transformar o chumbo do “tentar” no ouro do “transcender”, Bosschar é roteirista da Temporada 4 do (obrigatório) programa “Lady Night”, com a Elaine May dos anos 2010, Tatá Werneck. Numa volta da Dinamarca, onde passou anos entre estudos e encenações, o diretor de “War’s Unwomanly Face” trabalhou, em palcos do Brasil, com os maiores nomes da cultura como Antunes Filho, Antônio Abujamra e Gerald Thomas. Há fragmentos de cada um deles nas trincheiras que ele e Carolyna farparam a partir da saliva de Svetlana. Confira o rugido do leão na entrevista a seguir:

O texto de Svetlana em ação, em clique de Guga Melgar

O que existe de dramaturgia numa guerra como o conflito relatado na prosa de Svetlana Aleksiévitch?
Marcello Bosschar: A própria Svetlana responde a esta pergunta quando afirma que, ao decidir escrever “A guerra não tem rosto de mulher”, ela não pretendia fazer um estudo sobre o combate armado em si, mas um estudo sobre o humano. Um estudo, neste caso específico, da mulher… na guerra. Ela diz algo que me assusta e fascina. Primeiro a parte que me fascina: devemos aprender com essas mulheres como elas conseguiram manter o amor e a própria humanidade vivas sob condições tão inumanas. E, agora a parte que me assusta: de acordo com Svetlana, devemos aprender pois não sabemos o que está por vir e o que está por vir pode ser muito pior do que já aconteceu na História da Humanidade. Então esse é um estudo sobre como não nos tornarmos fera, mesmo convivendo com feras em tempos bestiais. É impossível não pensar em Augusto dos Anjos aqui. Ele que dizia que o homem que vive entre feras sente a inevitável necessidade de também ser fera. E é por isso que, tanto ao final do livro, quanto ao final de minha peça, as pessoas descrevem uma sensação de esperança, um sentimento de amor. A dramaturgia na guerra descrita por Svetlana surge a partir do elemento puramente humano que está inserido na guerra. E foi por isso, suportado pela própria motivação descrita por Svetlana para escrever esse livro, que fui além… Ousei achar que estaria aprofundando ainda mais as intenções da autora ao realizar essa obra e, por isso, retirei os elementos temporais e geográficos na transposição para o palco.

E o que resulta daí?
Marcello Bosschar:
Onde antes líamos “Os porcos alemães”, no palco ouve-se: “O inimigo”. Assim focamos ainda mais na experiência humana. E foi por causa desta opção que uma senhora, moradora de uma comunidade no Rio de Janeiro, comentou ao sair da peça: “Que bom que as pessoas vão saber como vivemos”. Este comentário foi um tipo de prêmio que recebi e uma verdadeira confirmação sobre qual é o foco deste trabalho literário/cênico. E ainda acrescento: Svetlana foi considerada persona non grata na Rússia não só porque ela quebrava a narrativa heroica e histórica da guerra, ao falar do amor no front, da poesia do vermelho do sangue da menstruação das soldadas na neve branca e alva das longas caminhadas, mas também porque ela ousava falar que a crueldade não surgia apenas do inimigo. A crueldade também surgia nos vizinhos invejosos que entregavam seus desafetos como forma de vingança, dos soldados aliados que estupravam e pilhavam tanto quanto os inimigos.

Instantâneo do espetáculo em clique de Milton Montenegro

De que maneira a poética de Svetlana Aleksiévitch transborda para a sua direção de atores?Marcello Bosschar: A minha maior preocupação ao aceitar o desafio de levar para o palco uma obra jornalística/literária foi a de honrar a História e honrar a verdade da narrativa tão preciosa dessas mulheres que lutaram na guerra. A linguagem teatral não poderia ser melodramática, impostada, “teatral”. Sentir-me-ia ridículo ao tentar encenar a dor de uma mãe que tem que matar o seu bebê pois ele está chorando de fome e a tropa dos inimigos se aproxima. Como fazer isso? Como construir de forma crível essa sensação numa atriz? Eu me utilizei de uma ferramenta da tragédia grega, que ainda é utilizada na maior parte dos bons filmes de terror e suspense: aquilo que não vemos e apenas imaginamos se torna muito pior do que o que poderia ser mostrado. Nenhum monstro é mais assustador que aquele que imaginamos existir embaixo de nossa cama prestes a agarrar nosso pé. Nas cenas mais trágicas, conduzi a atriz a uma interpretação quase neutra, onde as emoções dela não fossem descritivas, mas que ela desse ao público o direito de sentir a emoção que ele quiser sentir. Ela narra, de forma humana e sincera, o acontecido e nós preenchemos o fato com nossa imaginação e sentimento. Mais uma vez busquei na Svetlana a ferramenta mais apropriada para a direção da atriz. Svetlana diz que depois de ter escutado centenas de depoimentos ela desenvolveu uma sensibilidade para o que era uma história verdadeira e o que era uma história fabricada.

E o quanto dessa metodologia de front dela consegue desaguar em você?
Marcello Bosschar: Após mais de 30 anos trabalhando com atores, eu posso dizer que me tornei bom em saber quando um ator está “mentindo” e quando está sendo sincero com suas emoções. Nessa peça solo, ensaiei a atriz Carolyna Aguiar no exercício da verdade. Nesse exercício não existe certo ou errado, apenas o que  é verdadeiro. Ela pode rir ao contar uma história pavorosa  e isto ser completamente orgânico e pode chorar ao lembrar de algo suave, como o som de um violino ao final da guerra. Ela pode inclusive não sentir nada e contar algumas histórias aparentemente sem nenhuma emoção. Tudo funciona se for verdadeiro. A única coisa que ela não pode, nessa minha opção cênica, é forçar uma emoção, espremer uma lágrima ou embargar a voz para trazer um efeito mais dramático. A Svetlana diz que sabia quando as mulheres paravam de contar a verdade para inventar um fato ou rebuscar um acontecimento, pois a memória e a dor tem uma textura que não dá para fabricar artificialmente. Assim, em todos os ensaios, eu parava Carolyna se eu sentia que ela estava se emocionando com a emoção de ser uma atriz em cena, em vez de se deixar emocionar genuinamente através dessas histórias tão lindas e verdadeiras. Houve um dia inclusive que a atriz estava se sentindo fria e distante e eu pedi para que ela respeitasse esse sentimento. Ela fez toda a peça nesse lugar que era honesto e digno e foi um dos ensaios que mais me fez chorar de emoção.

Sua obra celebra o feminino no lugar da resistência. O quanto a poesia de Svetlana te municia de material para essa celebração?
Marcello Bosschar: Acho que tanto o meu trabalho quanto o da Svetlana, antes de celebrar a mulher no lugar da resistência, coloca-a no lugar da “Existência”. Elas estavam “lá”… só que ninguém até então havia se interessado em saber sobre como elas “experienciaram” a guerra. A mulher obviamente sempre esteve presente em todo e qualquer evento histórico, por razões óbvias e ululantes, mas quantos desses eventos nos são descritos através do prisma do feminino? As mulheres no faroeste  não existiam apenas como prostitutas, assim como, na guerra, elas não eram “apenas” cozinheiras (e em nenhum desses dois casos procuro diminuir a importância tanto de uma quanto da outra profissão), mas elas também eram atiradoras, mafiosas, bandidas, heroínas, vilãs terríveis e pensadoras magníficas, que contribuíram tanto para o bem quanto para o mal da humanidade. Assim, ao ler sobre a guerra, narrada sob a perspectiva da mulher, pela primeira vez pude compreende-la através de um prisma que fazia mais sentido para mim. Quando escuto uma história sobre uma soldada que salvou um inimigo que estava morrendo, pois ela precisava salvar a própria humanidade, a minha percepção desse evento se expande. Tive o privilégio de perguntar à própria Svetlana qual seria a diferença mais gritante entre o homem e a mulher na guerra. Ela respondeu: “O homem tinha muito mais medo de morrer e a mulher de matar”.

Bunker do bom gosto na aposta em expressões artísticas de vanguarda, o Midrash fica na Rua General Venâncio Flôres, 184 – Leblon. Já a Svetlana Aleksiévitch fica numa livraria pertinho de você.

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