Susanna Nicchiarelli: capital de Eleanor Marx

Susanna Nicchiarelli: capital de Eleanor Marx

Rodrigo Fonseca

06 de setembro de 2020 | 12h41

Rodrigo Fonseca
De carona nas gôndolas dos amigos europeus que conseguiram furar a fronteira da Covid-19 e chegar ao Festival de Veneza, o P de Pop só vê crescer a badalação em torno de “Miss Marx”, um olhar à moda biopic para a caçula do autor de “O Capital”, Eleanor, que foi muito além de seu sobrenome e se impôs como um ícone feminista em prol do sufragismo e da equidade. Romola Garai se impôs com graça no papel principal, ajudando o longa-metragem a catapultar para a consagração a realizadora romana Susanna Nicchiarelli. Ela desponta entre as vozes favoritas aos prêmios venezianas. Escolada em narrativas documentais, como “Il terzo occhio” (2003) e “Per tutta la vita” (2014), a diretora alcançou notoriedade no Lido mesmo, há três anos, ao filmar “Nico, 1988”. Seu regresso ao evento, presencialmente, vem sendo triunfante, com uma passagem de cabeça erguida, numa mostra que viu muita gente se dividir em relação a “Amants”, da francesa Nicole Garcia, e a celebrar o húngaro Kornél Mundruczó e seu “Pieces of a Woman”. Nicchiarelli investe mais em pulsões sensoriais do que em fatos em suas narrativas. Foi assim em seu recorte histórico da última turnê (e dos últimos excessos) da alemã Christa Päffgen, a Nico, do Velvet Underground.
Uma das sensações do Festival de Veneza 2017, de onde saiu coroado com o prêmio de Melhor Filme na mostra Horizontes, “Nico, 1988” é menos uma cinebiografia e mais uma carta de amor ao rock’n’roll. Escrito pela cineasta, o roteiro insiste na tese de que a devoção estética de uma artista compromissada com a ousadia não sucumbe diante de fases de tormenta. A intimidade de Susanna com as cartilhas do Real dá à produção um desapego em relação a didatismos inerentes a tramas baseados em mitos: sua câmera não dá bola para detalhes, preferindo se concentrar na implosão de sua personagem central. Cada viga que sustenta Christa, em seus tempestuosos 49 anos, rui em cena, por vezes de um modo ruidoso, por vezes, em um doído silêncio. Suas ruínas existenciais e afetivas ficam depositadas no olhar e na máscara trágica de Trine Dyrholm, atriz dinamarquesa que, aos 46 anos, vive o apogeu de sua carreira no cinema, num fluxo contínuo de consagração iniciado em 2016, com a conquista do Urso de Prata no Festival de Berlim, por “A comunidade”. Trine sublinha com precisão cirúrgica os extremos de fragilidade e fúria de Crista, ressaltando que seu lado Nico (o lado roqueira) é o RG de sua alma alquebrada.
p.s.: Tem Garcia Júnior em dose dupla na Globo esta noite, dublando Kevin Costner em “3 Dias Para Matar”, às 22h50 – no papel de um assassino infectado com um veneno mortal – e à 0h40, em “Rota de Fuga”, onde empresta seu vozeirão a Arnold Schwarzenegger.

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