Susanna Lira na torre dos afetos

Susanna Lira na torre dos afetos

Rodrigo Fonseca

19 de novembro de 2020 | 09h09

Uma das mais prolíficas diretoras do cinema latino-americano na atualidade, Susanna Lira comoveu a sala de Zoom do seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
No muito (ou seria melhor, no tudo) que há de sincero (e vivo) nas falas da diretora Susanna Lira ao Na Real_Virtual – seminário documental criado por Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos – na última quarta-feira, há depoimentos capazes de arrancar lagriminhas de quem só esperava um papo sobre dispositivos de uma das mais prolíficas cineastas das Américas. “Tenho um interesse sincero pelas pessoas e falo numa honestidade quase infantil. A (ex-presidente) Dilma (Rousseff), quando encontrei com ela (nas filmagens de “A Torre das Donzelas”), falei: ‘Esperei quatro anos por essa entrevista’. Ela me respondeu com um ‘esperou pouco’. Eu sei lidar com os nãos. De alguma maneira, encontro recursos internos para lidar com adversidade. Acho que o documentário é um tipo de ato que te torna muito humilde, no sentido de abrir espaço para o outro. Eu preciso ser a pessoa mais compreensiva e acolhedora para conseguir fazer o que quero. As pessoas não passam na minha vida, elas vão ficando. (…) Eu sou totalmente atravessada por aquelas histórias, durmo pensando e acordo pensando. Tenho um grupo com as pessoas do ‘Torre…’ e a gente discute todos os assuntos ali. Vou acumulando essas pessoas positivamente na minha vida. Às vezes, saio no meio da entrevista para chorar no banheiro e volto. Eu me deixo atravessar e as pessoas sentem isso. (…) Falo muito a frase: ‘Nada é sobre nós sem nós’. Não faço filme sobre as pessoas e sim com as pessoas”.

Ganhadora do troféu Redentor de melhor documentário no Festival do Rio 2018, com este muito citado (e toda citação, diante de sua excelência, é pouca) “Torre das Donzelas”, sobre mulheres de brio GG unidas pela luta contra a ditadura, Susanna é uma usina viva de produção no Brasil, sobretudo na seara documental. Acabou de lançar um filme no Festival Mix Brasil, chamado “Prazer Em Conhecer”, sobre prevenção ao HIV, e dirigiu uma série para a Globoplay, chamada “Por Um Respiro”, sobre médicos e pacientes no front da covid-19, que deve estrear ainda esse ano. Debruçada no roteiro de um longa-metragem de ficção sobre a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart, Susanna virou um sinônimo raro de “quantidade = qualidade” nas telas do Brasil. A prolífica produção de longas e séries da diretora de “Damas do Samba” (2013) e de “Mussum: Um filme do cacildis” (2018) trilha uma progressão crescente e surpreendente de excelência.
“O documentário é lugar da experimentação no sentido da renovação da própria linguagem cinematográfica. E para se cumprir esse papel é necessário um terreno fértil”, disse Susanna ao P de Pop, antes de sua participação do simpósio promovido pela da Imaginário Digital, no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2. “Se por um lado, com a Ancine parada, temos poucas possibilidades de produzir, por outro, estamos vivendo um momento histórico de transição política que é impossível não filmar. A realidade está cada vez mais instigante e, nesse sentido, o papel do documentarista é cada vez mais relevante”.

Já no início da apresentação, Mattos amoleceu corações ao perguntar à diretora: “No site da sua produtora, Modo Operandi, consta a frase: ‘Sempre movida por temas que respeitam as diferenças sociais, culturais e de gênero’. Mais que um slogan, isso me soa como uma espécie de critério de curadoria. Como essa frase vira realidade no trabalho de vocês diariamente na produtora?”. Na resposta, Susanna fez da doçura um aríete: “A produtora, desde que abrimos, é pautada por isso: raramente, a gente pega um trabalho proposto por um canal, 99% dos nossos trabalhos a gente que propõe e somos conhecidos como uma produtora que faz trabalhos. Não é fácil, hoje está mais difícil do que todos os momentos que passei na produtora. Mas tenho uma equipe que me ajuda emocionalmente a lidar com o que faço. Eu me canso para começar a trabalhar. (…) Sou adepta daquilo que o (diretor Eduardo) Coutinho falava: ‘Tudo o que eu faço é contra o jornalismo’. Tento pelo menos. O Festival do Rio foi a minha escola. Eu via os documentários e anotava tudo em cardenos. Quando fiz a produtora pensei que precisava falar do que interessa. Gilberto Gil assume o Ministério da Cultura e começa a ter editais e um diálogo de políticas públicas. O meu filme ‘Positivas’ teve apoio do Ministério da Saúde, para fazer uma crítica ao próprio Ministério da Saúde. Bons tempos aqueles. Não consigo me desvincular mais desse norte. Entendo que meu lugar, naquele momento, era um pouco marginalizado no mercado. Primeiro por fazer documentário e, depois, por ser uma mulher realizadora (a tônica do sexismo é um dos alvos da diretora). O maior orçamento não era para mim e sim para as pessoas que estavam lá há mais tempo. Eu acho que estou sempre começando. Isso me deixa no estado de permanente entusiasmo. Isso me faz querer falar dos assuntos que falo. Basicamente, 90% dos projetos da Modo sou eu que dirijo. Surge de uma inquietude minha, mas nunca foi fácil e nem está sendo agora. A produtora conseguiu ficar na pandemia sem demitir ou diminuir o salário de ninguém. Tenho muito orgulho disso”.

Foi linda a festa de Susanna neste que se impõe como “O” evento do ano no planisfério nacional da cinefilia, com 250 ouvintes inscritos por noite, sempre regando as sabatinas de perguntas que amalgamam poética e política. O de Susanna perfumou a web de resiliência. A noite de sexta promete ir numa toada igualmente doce com Roberto Berliner falando sobre inclusão a partir de seu “A Pessoa É Para O QU Nasce” (2003). No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Sandra Werneck e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo, o aplauso e um lugar de honra na História, a do nosso cinema, por ser uma reação e uma proposição em um tempo de doença (em múltiplos níveis). Cada conversa é um curso de em si. E o de Susanna fez do empoderamento feminino uma carta de intenções para um futuro que já está aí.

p.s.: Começou o Festival Varilux. Não perca “Persona Non Grata”, de Roschdy Zem. O ator e realizador do memorável “Chocolate” (2016) faz neste feérico thriller uma releitura de “O Invasor” (2001), de Beto Brant, assumindo o papel de Anísio (aqui chamado Moïse), celebrizado por Paulo Miklos no original brasileiro. Moïse é um assassino que se livra de um dos sócios dos donos de uma empreiteira, Maxime (Raphaël Personnaz) e Montero (Nicolas Duvauchelle, em brilhante atuação).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: