Surpresa alemã em Locarno

Surpresa alemã em Locarno

Rodrigo Fonseca

10 de agosto de 2019 | 07h17

Jette é uma estudante alemã em fuga do jugo paterno em “A voluntary year”

Rodrigo Fonseca
Em alta desde o sucesso mundial da comédia “Toni Erdmann”, o cinema alemão fez uma entrada triunfal na briga pelo Leopardo de Ouro, no 72. Festival de Locarno, apoiado na ironia um tanto triste de “Das freiwillige Jahr” (chamado de “A voluntary year” no resto do mundo). Com um roteiro primoroso, que se calça em quiprocós de uma jovem estudante, o longa-metragem germânico foi dirigido por Henner Wincler e Ulrich Köhler. É a paleta de gestos e olhares da jovem atriz Maj-Britt Klenke que melhor serve de combustível dramático a uma trama sobre o duelo entre arrogância paterna e rebeldia juvenil.

Na trama, Maj-Britt é Jette, moradora de uma privíncia germânica que está prestes de viajar pela América Latina. Seu pai é um médico sem o menor tato com os pacientes, vivido de modo luminosamente rabugento por Sebastian Rudolph. O desejo dele é ver Jette ganhar o mundo. Mas o coração da jovem está ocupado demais com o namorado para almejar os ares da latinidade. Por isso, ela dá um “no-show” no aeroporto e sai à cata de seu amado. Mas quem disse que seu zeloso papai vai deixar…

Köhler e Wincler narram com um humor indigesto essa ciranda de incompatibilidade de desejos. A câmera deles se fixa sempre no olhar de seus protagonistas, para revelar o quanto o afeto deles é pequeno perto da total desconexão de ambições entre eles. A interpretação de ambos é um primor.

Até o momento, o filme mais elogiado de Locarno – o único com status de unanimidade no carinho do heterogêneo público local – é “Magari”, drama italiano que abriu o evento, na quarta. Assistente de direção do mito Bernardo Bertolucci em “Assédio” (1998), Ginevra Elkann é a cineasta no comando deste ensaio sobre os limites da tolerância em família. Na trama, três crianças egressas de casamentos dissolvidos voltam para Roma, após uma viagem por Paris, a fim de reverem os pais. Mas esse regresso não vai se limitar à alegria. Alba Rohwarcher (a nova Anna Magnani) e Riccardo Scamarcio têm atuações nas raias do sublime.

Locarno segue até 17 de agosto, quando o júri presidido pela diretora francesa Catherine Breillat revela seus eleitos. Em seguida, Kiyoshi Kurosawa fecha o evento com a exibição de “To the Ends of the World”.

Neste sábado, rola sessão na Piazza Grande do brilhante “Era uma vez… em Hollywood”, o novo filme de Quentin Tarantino. Fora essa reedição da História, à luz do cógito tarantinesco, com Margot Robbie, Brad Pitt e um inspirado Leonardo DiCaprio, a pedida mais quentr deste sábado em Locarno é “Merveilles à Montfermeil”, de Jeanne Balibar. Há quem diga que ela extraiu da loura Emmanuelle Béart a melhor atuação de sua carreira. A conferir.

Na seara do Real, o .doc austríaco “Space Dogs”, de Elsa Kremser e Levin Peter, levou uma penca de espectadores às lágrimas com “Space Dogs”, um retrato da cadelinha Laika, a astronauta que singrou os céus em prol da URSS.

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