‘Supernova’: uma ‘love story’ estelar

‘Supernova’: uma ‘love story’ estelar

Rodrigo Fonseca

22 de setembro de 2020 | 10h42

O músico Sam (Colin Firth) e o escritor Tusker (Stanley Tucci) enfrentam um diagnóstico de demência em “Supernova”, atual favorito à Concha de Ouro de San Sebastián

RODRIGO FONSECA
Realizador do charmoso “Crônica de Uma Certa Nova York” (2000), Stanley Tucci concorreu ao Oscar uma única vez, como ator coadjuvante, por “Um Olhar do Paraíso” (2009). Na ocasião, a diva Meryl Streep,sua colega em vários filmes, frisou o quão farta é a generosidade que ele tem no trato com seus parceiros de cena. Definido também como um parceiro generoso, Colin Firth, laureado com a estatueta de Hollywood em 2011, por “O Discurso do Rei”, teve a chance de provar do “charme Tucci” em um lugar de dor… mas também de amor…. em um filme no qual seu coprotagonista faz jus (e muito) aos elogios recebidos por Meryl: o drama “Supernova”. Só dá ele aqui no Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, nesta terça de sol a pino. Tucci faz de Firth um gigante e Colin faz de Stanley um colosso. É uma troca de harmonia plena entre dois atores em estado de graça, configurando um potencial favorito à Concha de Ouro de 2020, com CEP do Reino Unido.

Dirigido pelo também ator e cineasta Harry Macqueen (diretor de “Hinterland”) com um tônus de delicadeza ascendente, “Supernova” tem no silêncio apaixonado de seu casal de protagonistas – o músico Sam e o escritor Tusker – seu combustível. Tucci dá a Tusker uma dimensão poética rara de se ver: cheio de si, em sua esgrima com as palavras, esse autor está diante de um diagnóstico de demência capaz de liquidar sua memória. Seu marido, Sam (melhor papel de Firth em anos) testemunha sua peleja diária com um mal terminal e suas decisões nem sempre palatáveis. Macqueen filma os dois com doçura, sem apelar para closes invasivos, calçado na partitura melancólica do músico Keaton Henson em sua trilha sonora. Em um dado momento, fala-se “Não se chora luto de alguém que está vivo”. É a deixa para se entender o quanto um abraço pode ser um abrigo e quão analgésico o efeito de mãos dadas pode ter sob as células cerebrais. Num momento de devastar miocárdios, Tusker se propõe a ler um discurso para a família de seu companheiro. Mas prefere que o próprio Sam o leia. Na leitura, San Sebastián virou geleia e aplaudiu aquela paixão com ardor ibérico.

Antonio Pitanga em “Casa de Antiguidades”

Antes de chorar litros com “Supernova”, San Sebastián voltou no tempo até 1948, para testemunhar o teste de força de vontade do povo da Lituânia, no pós II Guerra, sob o jugo de Stalin, no áspero “In The Dusk”, de Sharunas Bartas. Cinco anos depois de sua obra-prima, “Paz Para Nós Em Nossos Sonhos” (2015), o diretor faz uma triagem da luta de camponeses, em 1948, para driblar o controle soviético. “O falso patriotismo só nos subtrai. Daí falar de traições. Daí falar de quem realmente morreu pela pátria”, disse Sharunas ao P de Pop no evento, que segue até sábado, quando vai ser encerrado por “El Olvido Que Seremos”, produção colombiana rodada pelo ás espanhol Fernando Trueba (de “Quero Dizer Que Te Amo”).

Nesta quinta, San Sebastián confere “Casa de Antiguidades”, de João Paulo Miranda Maria, na mostra New Directors. Há quem diga que a atuação de Antonio Pitanga é um divisor de águas na história da representação no nosso país. Ele interpreta Cristovam, empregado de um laticínio no Sul, que se defronte com o racismo, mas se reinventa ao encontrar uma lar abandonado, repleto de memorabílias. Há quem aposte em indicações ao Oscar para o longa.

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