Superman conduz Richard Donner à Eternidade

Superman conduz Richard Donner à Eternidade

Rodrigo Fonseca

06 de julho de 2021 | 09h44

Richard Donner e Christopher Reeve nos sets de “Superman”

Rodrigo Fonseca
Com a morte de Richard Donner Schwartzberg (1930-2021), na segunda-feira, a obra monumental que ele edificou nas telas, começando pela TV, em 1960, e migrando para os cinemas, em 1968, com “Uma Dupla Em Ponto De Bala”, está renovando sua fortuna crítica, com novos olhares. Mas todos reverberam no mesmo eco: a excelência de sua imersão no universo do Homem de Aço. Há uma centelha lúdica em tudo o que Donner e o escritor Mario Gianluigi Puzo (1920-1999), autor do romance “O poderoso chefão”, imprimiram no script da mais famosa transposição do guardião de Metrópolis para as telas. De março de 1977 a novembro de 1978, o cineasta que acaba de nos deixar torrou um orçamento de US$ 55 milhões para filmar e finalizar uma adaptação cinematográfica das HQs de Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992). Antes dele, Guy Hamilton e Steven Spielberg foram cotados para assumir a direção. Egresso do sucesso de “A profecia” (1976), Donner rodou “Superman — O filme” em locações em Nova York, no Arizona, em São Francisco e no Novo México, além de Alberta no Canadá. Usou ainda os estúdios Pinewood e Shepperton, na Inglaterra, para filmar algumas cenas do longa-metragem, cuja bilheteria chegou a US$ 300 milhões. Cada reencontro com esta obra-prima do Pop reforça o talento de Margot Kidder (1948-2018), atriz canadense que deu de presente aos cinéfilos a mais sublime Lois Lane.
James Caan, Burt Reynolds, Kris Kristofferson e Nick Nolte foram cotados para viver Kal-El, o único (supostamente) sobrevivente do planeta Krypton. Este alien reside na Terra sob a identidade de Clark Kent, um repórter. Mas o papel acabou com Christopher Reeve (1952–2004), cuja atuação (irretocável) só é ofuscada pela de Gene Hackman como criminoso Lex Luthor. Na dublagem original, gravada pela Herbert Richers, André Filho emprestava a voz a Reeve. Darcy Pedrosa dublou Hackman. Na redublagem, nos anos 1990, Luiz Feier Motta assume a dublagem de Reeve.

Vale lembrar que o histórico do personagem nas telonas e telinhas foi atribulado. Seu bom mocismo, ainda estacionado em ditames morais dos anos 1930, e sua indestrutibilidade não mais encontram ressonância em um público hoje acostumado à malícia do Homem de Ferro de Robert Downey Jr. ou ao instinto assassino do Wolverine. Nos EUA, seus gibis caem nas vendas ano a ano. Vendem bem só quando um coadjuvante de luxo (em geral, o Batman) divide quadrinhos com ele, ou quando um quadrinista transgressor repagina seu perfil, como John Byrne na década de 1980 ou como Grant Morrison em “All-Star Superman”, de 2006.
A segunda kryptonita na bota do herói é a maldição que cerca os intérpretes de Kal-El/Clark Kent, a começar pelo mais icônico deles, o já citado Reeve. Nenhum ator teve sua imagem tão atrelada à figura apolínea criada em 1938 por Jerome Jerry Siegel (1914-1996) e Joseph “Joe” Shuster (1914-1992) quanto Reeve. A assombração, no caso dele, foi uma via de mão dupla. Paralisado após uma lesão cervical em 1995, Reeve jamais estrelou um longa de tanta popularidade e rentabilidade quanto a produção de US$ 55 milhões dirigida por Richard Donner. Seu faturamento, de US$ 300 milhões, assustou Hollywood há 42 anos. Ao mesmo tempo, o cinema jamais conseguiu alcançar com o personagem resultados de bilheteria e crítica maiores (ou iguais) ao longa de Donner, vide a frustrada carreira de “Superman — O retorno” (2006), cujo astro, Brandon Routh, caiu no ostracismo, até ressurgir agora, pela TV, para participar de “Crise nas Infinitas Terras”.
Antes, os atores Kirk Alyn (1910-1999) e George Reeves (1914-1959), que encarnaram o Super-Homem em séries dos anos 1940 e 50, também foram amaldiçoados: o primeiro perdeu a fama e isolou-se; o segundo foi encontrado baleado. Dean Cain, do seriado “Lois & Clark” (1993), também viu seu prestígio popular sumir. Henry Cavill, seu atual intérprete, que se benza. Essa bênção não conseguiu ajudar a animação “Superman: Man of Tomorrow”, lançada em 2020 pela DC. A tentativa era criar uma espécie de Ano Um do kryptoniano, explorando sua gênese. Mas a direção de arte do desenho beira o amadorismo. Agora com a HBO Max é possível curtir todo o vigor de Cavill no Snyder Cut de “Liga da Justiça”, que é um júbilo para os olhos.

p.s.: Há cinco anos percorrendo os palcos do país, o monólogo “Nefelibato”, com Luiz Machado, volta ao cartaz, a partir de 7 de julho, simultaneamente no Teatro PetraGold (presencial) e no Sympla (virtual). Com direção de Fernando Philbert e supervisão artística de Amir Haddad, o espetáculo narra a trajetória de um homem que vai morar na rua após os efeitos devastadores da crise econômica nos anos 90. A trama é ambientada na década de 90, mas dialoga muito com o Brasil de hoje. Com 25 anos de carreira, Luiz Machado tem em “Nefelibato” o primeiro monólogo. “Anderson vai morar na rua nos anos 90, quando perde dinheiro e família, mas suas reflexões se encaixam muito bem no período em que estamos vivendo. Ele fala sobre as relações humanas, como as atitudes que nós tomamos sem pensar muito são individualistas. Durante essa pandemia, confinados em casa, tivemos a oportunidade de refletir a fundo sobre as relações sociais e o egoísmo que nos cerca”, acredita o ator.

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