Super-Homem anima e volta a Pequenópolis

Super-Homem anima e volta a Pequenópolis

Rodrigo Fonseca

11 de abril de 2020 | 14h06

Rodrigo Fonseca
Baseado na graphic novel de Mark Millar (aqui chamada de “Entre a Foice e o Martelo”), “Red Son” está se tornando um fenômeno da animação, já com uma opção de encomenda nestes dias de 40ena, restaurando o prestígio popular do Super-Homem, dublado por Jason Isaacs no desenho de Sam Liu. Em paralelo ao longa-metragem animado, a releitura dos anos de formação do herói, feita por Frank Miller e John Romita Jr., está nas bancas brasileiras, repaginando seus dias de moleque em Pequenópolis (Smallville). Os diálogos de Miller se destacam por seu existencialismo. Mas eles comportam uma centelha lúdica similar à que o escritor Mario Gianluigi Puzo (1920-1999), autor do romance “O poderoso chefão”, imprimiu ao script da mais famosa transposição do guardião de Metrópolis para as telas. De março de 1977 a novembro de 1978, o cineasta Richard Donner Schwartzberg torrou um orçamento de US$55 milhões para filmar e finalizar uma adaptação cinematográfica das HQs de Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992). Antes dele, Guy Hamilton e Steven Spielberg foram cotados para assumir a direção. Egresso do sucesso de “A profecia” (1976), Donner rodou “Superman — O filme” em locações em Nova York, no Arizona, em São Francisco e no Novo México, além de Alberta no Canadá. Usou ainda os estúdios Pinewood e Shepperton, na Inglaterra, para filmar algumas cenas do longa-metragem, cuja bilheteria chegou a US$300 milhões.

No fim dos anos 1970, James Caan, Burt Reynolds, Kris Kristofferson e Nick Nolte foram cotados para viver Kal-El, sobrevivente do planeta Krypton que reside na Terra sob a identidade de Clark Kent, um repórter. Mas o papel acabou com Christopher Reeve (1952–2004), cuja atuação (irretocável) só é ofuscada pela de Gene Hackman (que acaba de chegar aos 90 anos) como o criminoso Lex Luthor. Na dublagem original, gravada pela Herbert Richers, André Filho emprestava a voz a Reeve. Darcy Pedrosa dublou Hackman. Mas vale lembrar que o histórico do personagem nas telonas e telinhas foi atribulado. Seu bom mocismo, ainda estacionado em ditames morais dos anos 1930, e sua indestrutibilidade não mais encontram ressonância em um público hoje acostumado à malícia do Homem de Ferro de Robert Downey Jr. ou ao instinto assassino do Wolverine. Nos EUA, seus gibis caem nas vendas ano a ano. Vendem bem só quando um coadjuvante de luxo (em geral, o Batman) divide quadrinhos com ele, ou quando um quadrinista transgressor repagina seu perfil, como John Byrne na década de 1980 ou como Grant Morrison em “All-Star Superman”, de 2006. A segunda kriptonita na bota do herói é a maldição que cerca os intérpretes de Kal-El/Clark Kent, a começar pelo mais icônico deles,o já citado Reeve. Nenhum ator teve sua imagem tão atrelada à figura apolínea criada em 1938 por Jerome Jerry Siegel (1914-1996) e Joseph “Joe” Shuster (1914-1992) quanto Reeve, celebrizado em “Superman — O filme”, de 1978. A assombração aqui foi uma via de mão dupla. Paralisado após uma lesão cervical em 1995, Reeve jamais estrelou um longa de tanta popularidade e rentabilidade quanto a produção de US$ 55 milhões dirigida por Richard Donner. Seu faturamento, de US$ 300 milhões, assustou Hollywood há 42 anos.

O desenho animado de Sam Liu, baseado na HQ de Mark Millar

Ao mesmo tempo, o cinema jamais conseguiu alcançar com o personagem resultados de bilheteria e crítica maiores (ou iguais) ao longa de Donner, vide a frustrada carreira de “Superman — O retorno” (2006), cujo astro, Brandon Routh, caiu no ostracismo. Antes, os atores Kirk Alyn (1910-1999) e George Reeves (1914-1959), que encarnaram o Super-Homem em séries dos anos 1940 e 50, também foram amaldiçoados: o primeiro perdeu a fama e isolou-se; o segundo foi encontrado baleado. Dean Cain, do seriado “Lois & Clark” (1993), também viu seu prestígio popular sumir. Henry Cavill. que interpretou o guardião de Metrópolis em “Homem de Aço” (2013) e voltou ao papel em 2016 – em “Batman & Superman”- e em 2018 – em “Liga da Justiça -, que se benza.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: