O belo ‘Ilusões Perdidas’ vai à fonte das fake news

O belo ‘Ilusões Perdidas’ vai à fonte das fake news

Rodrigo Fonseca

19 de setembro de 2021 | 21h13

Salomé Dewaels vive a atriz Coralie no longa de Xavier Giannoli

Rodrigo Fonseca
Laureada com a Palma de Ouro (pelo monumental “Titane”, de Julia Ducorneau) e com o Leão de Veneza (dado a “L’événement”, de Audrey Diwan), a França passa por uma autoanálise em que discute – e deixa-se discutir – a relevância de seus outros cinemas. De um lado, há a comédia varejão, representada por franquias como “Que Mal Eu Fiz a Deus?” (2015-2019); do outro, os dramas burgueses, caso de “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”; entre eles, tem experimentações como as de Bertrand Mandico e seu “After Blue (Paradis Sale)”, laureado no Festival de Locarno, em agosto, com o Prêmio da Crítica. No meio desse racha entre modos de filmar (e de se apropriar do espaço de representação da telona), tão debatido por cá em San Sebastián, na 69ª edição do festival espanhol, a pátria dos Lumière presenteia telonas da Península Ibérica com o suntuoso “Ilusões Perdidas”, de Xavier Giannoli. Trata-se de um tardio (mas bem-vindo) exercício de cinema moderno, cerzido por carretéis alinhados ainda nos idos de 1960. Tem algo de sexagenário, em seu apuro formal, sem jamais ser acadêmico, apoiado numa direção de arte (chefiada por Riton Dupire-Clément e Etienne Rohde, que junta Bruno Via e Fathi El Aihar no melhor de cada um) e num enxoval de figurinos (desenhados por Pierre-Jean Larroque) que o Oscar deveria premiar. É tão sexagenário como “O Leopardo” (1963), de Visconti, numa analogia que atesta sua excelência. Igualmente laureável é o desempenho de Vincent Lacoste, no papel do chefe de redação Etienne Lousteau, nesta adaptação feita a fio de ouro do romance “Illusions perdues” (1837), de Honoré de Balzac (1799-1850). Frente a um cenário de incômodo da cinematografia (tão vívida) dos franceses consigo mesma, a chegada de um filme “à antiga”, com a potência que pós-modernos rasgariam suas “Cahiers du Cinéma” (compradas no eBay) para ter, soa feito uma espécie de provocação da História. Soa como respiração a balão de oxigênio para estratégias de storytelling que parecem incompatíveis com os códigos palavrosos do audiovisual da streaminguesfera que nos cerca. Da mesma forma como “Lupin” soou, no meio das plataformas digitais. Mas o resultado do que Giannoli criou vai muito, muuuuuuito além. Egresso do Festival de Veneza, que o esnobou em sua premiação oficial, o longa do diretor de “Quand j’étais chanteur” (2006) é um estudo sobre a gênese do jornalismo, fidelíssimo à ironia balzaquiana em sua observação do cinismo da classe profissional sobre a qual se debruça, sendo fiel ao clima de ressaca de sua prosa. Benjamin Voisin (de “Verão de 85”) usa tudo o que aprendeu com François Ozon para construir a figura do poeta Lucien Rubempré como um edifício afetivo de múltiplos andares de angústias e sonhos.

O poeta Rubempré (Benjamin Voisin) e o diretor de redação Lousteau (Vincent Lacoste)

Seu enredo – qual está no livro – sintetiza a viagem pela ascensão e queda de um aspirante a Anacreonte, que encontra na Imprensa meios de ganhar o pão após chegar a Paris, vindo do interior, atrás de um amor, com traços de nobreza – um bom papel dado a Cécile de France. Na metrópole, Rubempré vai se calejar como um crítico ferino, treinado por Lousteau, que é um alter ego de Balzac (segundo muitos críticos). Além de calos, ele ganha noites e noites de prazer nos lençóis da atriz Coralie, chama ardente que Salomé Dewaels interpreta (bem) com decantada inteligência. Mas o moço ganha também uma vaidade desmedida. Ganha um ego tamanho GG. São maus ganhos, que seu rival, Nathan (vivido com garbo pelo diretor Xavier Dolan), vai explorar com viperina sagacidade. Sob a fotografia barroca de Christophe Beaucarne, vemos o tombo de Rumbempré doer, espatifar ossos, revelar nuanças da prática da reportagem e apontar uma série de nódoas do presente, na lógica das fake news. É um curso de Comunicação em duas horas de requinte, com Gérard Depardieu a dar aulas de empáfia, numa genial participação como um editor. Não por acaso, em Veneza, Elisa Giudici, do site “The Film Experience” deu a “Illusions Perdues” uma definição precisa, ao chama-lo de “proto-‘Cidadão Kane’”, enchendo-o de elogios. Foi um acerto de San Sebastián trazê-lo. Aliás, o evento tá bonito que tá. Em sua competição oficial, o melhor concorrente até agora veio de Paris: “Arthur Rambo”, de Laurent Cantet (dono de uma Palma dourada, dada a seu “Entre os Muros da Escola”, em 2008), sobre a cultura do cancelamento. É a saga de um jovem escritor argelino patrulhado após a eclosão de antigos tweets seus. Polêmica na veia.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.