Sublime, ‘Vingadores: Ultimato’ é o ‘Hamlet’ da Marvel

Sublime, ‘Vingadores: Ultimato’ é o ‘Hamlet’ da Marvel

Rodrigo Fonseca

25 de abril de 2019 | 11h11

Rodrigo Fonseca
É impossível encarar a sequência em que Tony Stark (Robert Downey Jr., em estado de graça) desabafa sua sensação de fracasso para a máscara sucateada do Homem de Ferro sem pensar em Hamlet e sua conversa com o crânio de Yorick: é ali, já no comecinho, carregado de energias shakespearianas, que o sublime “Vingadores: Ultimato” deixa evidente sua dimensão existencialista. É um longa-metragem primoroso em termos técnicos e dramatúrgicos, com um desfecho capaz de levar o público (marvete ou não) às lágrimas, mas que vai muito além da cartilha do comic book, vitaminado por uma trilha sonora de diversas tonalidades e por uma sequência mais do que antenada com os pleitos da contemporaneidade, na qual as mulheres heroínas ganham uma apoteose. E há um Mark Ruffalo rindo de si mesmo, mas com respeito, na pele verde do Professor Hulk. Mas o que mais interessa é o miolo filosófico deste blockbuster. Há algo de podre no reino da Marvel, representado na figura de um titã quebra-mundos que faz do extermínio uma forma de encarar a paz. Thanos é um Macbeth, que sujou suas mãos de pó  de pessoas atomizadas, movido por sua milady, a Morte, e, agora, coroado soberano do vazio, reflete sobre o horror de seus atos buscando equilíbrio interno. O longa-metragem anterior da franquia, o magnífico “Guerra infinita”, era dele… era seu “Trono manchado de sangue”, bem parecido com o de Akira Kurosawa. Mas neste novo e (por enquanto) derradeiro tomo de uma saga que redefiniu a história do entretenimento nas telonas, de 2008 para cá, percebe-se, já nos primeiros minutos, que o buraco é mais fundo, é o da náusea diante do ser ou não ser herói em um mundo que perdeu o leme. Por isso, só um vigilante demasiadamente humano como Stark – um ególatra alcoólatra, incapaz de relativizar suas noções de Bem e Mal – pode ser o Príncipe da Dinamarca nesta tragédia anunciada sobre a reconquista da esperança. Stark é o cordeiro do deus Stan Lee (1922-2018): a imolação de sua arrogância é o dízimo a ser pago em prol da crença do altruísmo como argamassa de uma civilização de tolerância. Thor, numa interpretação memorável de Chris Hemsworth, será o bobo da corte deste espetáculo de som e de fúria, fazendo o público rir para assinalar a medida do desespero de um gladiador sem arena. Thanos destruiu o Coliseu com seu estrategismo niilista: não existe mais batalha a ser lutada, no início deste inventário de cicatrizes dirigido na raia da excelência épica pelos irmãos Joe e Anthony Russo, porque não existem mais guerreiros. O Darth Vader das HQs apagou um punhado significativo de almas da Terra… e de todo o Universo… a fim de higienizar o Cosmos das pragas afetivas, das prepotências. Cabe ao Hefeso dos quadrinhos, Stark, o forjador, dar um sentido à falta de propósito ético que se instaurou em sua realidade com o desmantelo das diferenças e das imperfeições. Cabe a Stark forjar o caos. Daí a matéria do tocante “Avengers: Endgame” ser o Tempo. É na confluência do vetor intangível… a perenidade do existir… que o irretorcedível se torna reversível. O filme dos Russo não é uma trama de vingança. É a odisseia temporal de uma gente que perdeu o senso de sua relevância para bagunçar uma pintura com as tintas mórbidas da plenitude e da quietude, enchendo o quadro de humanidades. Stark é o retocador. Cabe ao Capitão América, num desempenho surpreendente de Chris Evans, ser o seu arte-finalista: preenchendo lacunas e completando pontilhados.  São amigos de vida. E é a amizade que serve de leme a uma narrativa que fecha um ciclo histórico de sucesso na Estética do audiovisual, aberto com “Homem de Ferro” (2008), de Jon Favreau, no qual Downey Jr. fez sua carreira reencontrar os trilhos. Ao assumir como personagem central (confiado a um ator de múltiplas virtudes), a figura de um nobre assombrado pelo espectro da perda, a Marvel deixa claro sua reta de maturidade em busca de trama menos calcadas em onomatopeias (Soc! Pow! Pum!) e mais interessadas em verticalizar conflitos psicológicos. Seu reinado no cinema começou, silencioso, há 21 anos, quando Wesley Snipes juntou tostões para filmar “Blade – O Caçador de Vampiros”, de 1998. Ali pavimentou-se o caminho para a fauna de mascarados de Stan Lee ganhar corpo e alma no cinema. Mas, desde o seminal “Logan” (2017), a Casa das Ideias (apelido da Marvel) abriu a deixa para discutir temas mais cortantes e urgentes do que o maniqueísmo. “Pantera Negra”, com sua veia racial festiva, foi o ápice da transformação do estúdio na trilha do amadurecimento, seguido pelo debate acerca do empoderamento de “Capitã Marvel”, com uma heroína que regressa aqui ainda mais gloriosa. Agora, com o novo “Os Vingadores”, temos um réquiem – sem cenas ao fim dos créditos – para um projeto de epicização fantástica das relações afetivas. Thanos, na inteligente composição de Josh Brolin, deixa de ser o Prometeu acorrentado do longa de 2018 e é repaginado como besta fera. Sua maldade assegura a verve espetaculosa de que o filme precisa para agradar os fãs e deixar o Homem de Ferro nos guiar pelos erros da condição humana. Filme de uma beleza singular.

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