Stéphane Brizé em guerra contra o ‘capetalismo’

Stéphane Brizé em guerra contra o ‘capetalismo’

Rodrigo Fonseca

15 de janeiro de 2022 | 08h26

Aos 55 anos, Stéphane Brizé é uma mistura de Ken Loach e Costa-Gavras

RODRIGO FONSECA
Com zero apelo comercial que não a presença de Vincent Lindon, o Antonio Fagundes francês, “Un Autre Monde”, um dos concorrentes ao Leão de Ouro de Veneza em 2021, tem estreia na Europa marcada para o dia 16 de fevereiro, se a variante Ômicron deixar, com a promessa de se tornar um dos filmes mais debatidos do Velho Mundo este ano. Mas como, se não existe nele um “ponto de venda” que aqueça o mercado? Bom, seu segredo está na grife por trás de seu realizador: Stéphane Brizé. Misto de Ken Loach com Costa-Gavras, o cineasta de 55 anos é, hoje, o diretor francês de maior engajamento nas causas socais do momento. Dois longas que Cannes aplaudiu deram a ele um prestígio que aquece sua fama e mobiliza olhares para sua participação no 24º Rendez-Vous Avec Le Cinèma Français, um fórum de promoção capaz de mobilizar dezenas de jornalistas de todo o planeta: “Em Guerra” (2018) e “O Valor de um Homem” (2015). Em ambos, ele teve Lindon a seu lado. Em atual longa, Lindon interpreta o executivo Philippe Lemesle, que vive um racha em seu casamento, no momento em que lida com as fragilidades desumanas de sua chefia ao lidar com os trabalhadores de um grupo industrial. Philippe chegou a um ponto em que tem que decidir sobre o sentido de sua vida. Mas essa decisão é permeada pelo fantasma de uma demissão em massa, tema essencial do realizador, na ativa desde 1993, quando estreou na direção de curtas-metragens.
“Existe uma conveniente invisibilidade em torno das tragédias da economia, como é o caso do desemprego massivo na França e em todo o mundo. Uma invisibilidade que se espalha graças a uma postura conivente do Jornalismo atual com os desgovernos das grandes corporações industriais. Falta denúncia. Falta alarme. Estamos diante de um estrago moral e social que só faz ampliar a desigualdade”, disse o cineasta ao Estadão, antes de finalizar “Un Autre Monde”, numa passagem pela Croisette, sem se considerar um herdeiro da tradição de Costa-Gavras. “Há uma reflexão inerente à ficção que faço, sempre, ligada ao uso da música, à utilização do som como recurso de mobilização do espectador. Não quero manipular plateias. A música tem que entrar como expressão poética e, não, como um artifício de coerção dos sentimentos. Mas eu persigo, conscientemente, uma natureza documental, que me impõe uma preocupação ética singular. Diante do grau de exclusão no mundo do trabalho hoje, não posso tratar essa massa desvalida ao meu redor com piedade. Ninguém é coitado. Os personagens não precisam de pena e, sim, de respeito e muita humanidade, sem vitimismo”.

“Un Autre Monde” brigou pelo Leão de Ouro de Veneza

Outro filme que anda arrebatando elogios na seleção da Unifrance, órgão do Ministério da Cultura da França que realiza o Rendez-vous (anualmente, sempre no mês de janeiro, antes presencialmente em Paris, e, agora, online, via Zoom), é “A Fratura” (“La Fracture”), de Catherine Corsini, que fez carreira no último Festival do Rio. Foi o ganhador da Queer Palm, a láurea de simbolismo LGBTQ+ de Cannes. Em sua narrativa tensa, as namoradas Raf (uma inspirada Valeria Bruni Tedeschi) e Julie (Marina Foïs) encaram uma jornada infernal em um hospital em meio a um piquete na França. A sala de espera da ala de Emergência, onde as duas estão, será palco para uma guerra entre classes, na qual heróis, mártires e vítimas se equiparam.

Ao largo do Rendez-Vous, que termina na segunda, a Unifrance executa, paralelamente, uma mostra online, aberta ao público, chamada MyFrenchFilmFestival, com direito a premiações por júri oficial e júri popular, com curtas e longas. A seleção deste ano vai apresentar pérolas como “Calamity, une enfance de Martha Jane Cannary”, animação de Rémi Chayée, e “Charuto de Mel”, drama da cineasta Kamir Aïnouz.
Basta clicar https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/ para acessar o conteúdo.

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